Sobre o quê: Victor Mancini tem muitos problemas. É sexólatra, sua mãe está esclerosada e doente numa clínica que custa uma fortuna por mês, seu emprego é esquisito, mal remunerado e ele vive de aplicar o golpe do sufoco em restaurantes. Finge que está sufocando para ser salvo por alguém e depois pedir dinheiro. Como, por que se chega a isso é o assunto do livro.
Crítica: Percebi que Chuck tinha um texto bom pelas primeiras três linhas do livro, o velho truque do “não leia”, velho e eficiente, quem sabe escrever sabe disso.
Chuck começa bem, continua melhor, vai ficando incrível e quando você tem certeza que vai acontecer alguma coisa pra tornar aquele romance algo banal e ridículo, porque está prometendo demais pra ser verdade, ele surpreende, dando ao leitor ainda mais do que foi prometido. Além de emoção, realismo, humor, nosso autor ainda escreveu um belíssimo suspense.
Não sou louca de contar mais nenhuma palavra além disso, mas o livro é de uma inteligência admirável. Pra mim, admirável é exatamente a palavra, admiro como alguém consegue criar uma história complexa sem deixar nenhuma ponta solta, fazendo com que todos os pequenos diálogos, fatos e detalhes tenham sentido. Num romance perfeito, as coincidências não existem. Criei essa definição agora, mas quando se diz que “o acaso não existe” é apenas o desejo humano de que a vida seja perfeita, onde tudo está perfeitamente planejado não há espaço pra imprevistos. Queremos uma vida tão bem planejada quanto aquele filme do Spielberg onde o menino fala “eu vejo gente morta”. “No sufoco” é assim. Mais do que perfeito, porque perfeito seria somente o que satisfaz plenamente nossas expectativas e o livro vai muito além.
As palavras que me faltam estão todas lá, no texto do romance. No início, o estilo me soou meio confuso, mas depois, pareceu que aquele período de estranhamento havia sido necessário. Afinal, o leitor vai mergulhar num universo nada comum. Ser viciado em sexo não é comum, assim como não é comum ter sido criado por uma mãe louca que vivia sendo presa, e muito menos pode ser comum trabalhar numa aldeia que imita o ano de 1700 como se a pessoa estivesse parada no tempo enquanto turistas tiram foto, os amigos fumam maconha, o patrão é um insensível e enganar os outros parece ser a única maneira de sobreviver. Ora, até que isso tudo não é tão incomum assim. Quanto de absurdo existe no nosso dia a dia e já deixou de ser absurdo simplesmente por não ser novidade? Impossível não se identificar com alguma parte desse mundo sem sentido.
Mas quando você já tiver se acostumado a todas às loucuras do livro assim como já se acostumou com as loucuras da sua vida, quando você achar que chegou no ponto do nada mais te surpreende, essa história ainda vai te surpreender. Uma grande surpresa. O que mais a gente pode esperar da vida?
Como diz tão bem a mãe do menino no livro: "A única fronteira que ainda existe é o mundo dos intangíveis...idéias, histórias, música e arte."
Gisela Cesario
Este é um blog de crítica literária. O objetivo é puramente entretenimento. Todas as críticas refletem apenas a opinião e o gosto pessoal da autora do blog. Não há, em momento algum, pretensão de julgar a obra exposta. Se qualquer autor(a) se sentir ofendido por essas palavras, pedimos desculpas por nosso erro, pois certamente não escrevemos com esse intuito. PS - Eventualmente, você também poderá encontrar aqui resenhas de filmes
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
CSI - Investigação da cena do crime ( Criminal Scene Investigation)
Sobre o quê: A eletrizante equipe do CSI se divide para desvendar dois crimes: os homens investigam o desaparecimento de uma dona de casa provavelmente esquartejada pelo marido. As mulheres investigam o estrangulamento de uma dançarina de boate.
Crítica: Muito bem, Sucker, mexa esse traseiro gordo... Quem já esqueceu de quando Caceta e Planeta debochavam da dupla de policiais americanos ( “fucker and sucker – uma dupla de dois tiras”) certamente poderá lembrar deles ao ler CSI. Tudo bem, essa era a proposta, não posso reclamar. É como alguém ir assistir a Máquina Mortífera e ficar revoltado com a violência. Por que eu fui ler esse livro? Talvez aquele mistério português do céu azul tenha me deixado tão poética que eu queria um pouco da simplicidade de um seriado americano, crime, pistas, assassino, final. Só que nada é tão simples assim. Pra começar, eu me recusava a acreditar que esse não era o livro que tinha dado origem à série da TV. Não sejam teimosos como eu. Acreditem. Não é. Todo mundo já viu um livro bom dar origem a um filme mais ou menos e a uma série mixuruca. Como nunca tive paciência para assisitir a um CSI inteiro na TV, achei que fosse isso, uma série mixuruca saída de uma boa idéia que estaria ali, naquele livro que eu tinha acabado de adquirir. Não. É o contrário. Literalmente. A série mixuruca deu origem a esse livro.
Ora, livros dão origem a filmes, filmes dão origem a seriados, não dá pra ir no sentido inverso.É como querer nascer velho e morrer bebê.
O autor fez seu dever de casa, escreveu um livro que nos dá a impressão de estar vendo cenas na tv, isso normalmente é um elogio, talvez literariamente seja um elogio, a forma é essa mesmo, o problema é o conteúdo. Policiais fanáticos por seu trabalho, que jamais querem ir para casar comer, dormir ou pegar alguém, brigas inversossímeis ( três policiais armadas contra um dançarina de biquini...), aquele retrato da justiça que faz a média do americano suburbano e com uma inteligência abaixo da média ir dormir tranquilo e se sentindo protegido. Bom, eu só consegui me sentir idiota. E o pior era que eu queria ter gostado. Queria ter adorado, até vi na revistinha da net quando passavam os episódios do CSI, eu ia adorar o livro e ia virar fã da série, mesmo ela sendo mais ou menos. Talvez um dia eu assista a um episódio inteiro só pra saber como é. Novamente, acreditem. Não pode ser pior que o livro.
Gisela Cesario
Crítica: Muito bem, Sucker, mexa esse traseiro gordo... Quem já esqueceu de quando Caceta e Planeta debochavam da dupla de policiais americanos ( “fucker and sucker – uma dupla de dois tiras”) certamente poderá lembrar deles ao ler CSI. Tudo bem, essa era a proposta, não posso reclamar. É como alguém ir assistir a Máquina Mortífera e ficar revoltado com a violência. Por que eu fui ler esse livro? Talvez aquele mistério português do céu azul tenha me deixado tão poética que eu queria um pouco da simplicidade de um seriado americano, crime, pistas, assassino, final. Só que nada é tão simples assim. Pra começar, eu me recusava a acreditar que esse não era o livro que tinha dado origem à série da TV. Não sejam teimosos como eu. Acreditem. Não é. Todo mundo já viu um livro bom dar origem a um filme mais ou menos e a uma série mixuruca. Como nunca tive paciência para assisitir a um CSI inteiro na TV, achei que fosse isso, uma série mixuruca saída de uma boa idéia que estaria ali, naquele livro que eu tinha acabado de adquirir. Não. É o contrário. Literalmente. A série mixuruca deu origem a esse livro.
Ora, livros dão origem a filmes, filmes dão origem a seriados, não dá pra ir no sentido inverso.É como querer nascer velho e morrer bebê.
O autor fez seu dever de casa, escreveu um livro que nos dá a impressão de estar vendo cenas na tv, isso normalmente é um elogio, talvez literariamente seja um elogio, a forma é essa mesmo, o problema é o conteúdo. Policiais fanáticos por seu trabalho, que jamais querem ir para casar comer, dormir ou pegar alguém, brigas inversossímeis ( três policiais armadas contra um dançarina de biquini...), aquele retrato da justiça que faz a média do americano suburbano e com uma inteligência abaixo da média ir dormir tranquilo e se sentindo protegido. Bom, eu só consegui me sentir idiota. E o pior era que eu queria ter gostado. Queria ter adorado, até vi na revistinha da net quando passavam os episódios do CSI, eu ia adorar o livro e ia virar fã da série, mesmo ela sendo mais ou menos. Talvez um dia eu assista a um episódio inteiro só pra saber como é. Novamente, acreditem. Não pode ser pior que o livro.
Gisela Cesario
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Um céu demasiado azul - Viegas
Sobre o quê: Desvendar o assassinato do filho de um importante membro do ministério. Com esse desafio, dois detetives amigos se reúnem e acabam fazendo um balanço das próprias vidas.
Crítica: Bom, no sobre o que me deu vontade de escrever “boa pergunta”.
Eu mesma me fiz essa pergunta várias vezes durante o romance. Com uma prosa bem envolvente, Viegas vai nos envolvendo pra não dizer nos enrolando e mistério que é bom, necas. Por ter um texto tão agradável, não chega a ser nenhum sacríficio ler as bem traçadas linhas desse autor, mas sobre o quê era mesmo que estávamos falando? É isso que acontece. A gente esquece o objetivo do livro se é que existe algum objetivo, se é que precisa existir algum objetivo num livro além do prazer de ler. Ou não. Um Céu Demasiado Azul é assim,ofuscante. O céu é tão azul que a beleza dessas descrições, das histórias paralelas ofusca o mal iluminado mistério. Sabe quando você entra num ônibus que dá tanta volta que te faz esquecer aonde estava indo? Dizer isso pode parecer meio vago, mas aí vai um dado concreto: os dois personagens principais somente se reencontram na página duzentos. Pelo amor de Deus, a história se baseia no reencontro deles ( leiam a orelha e comprovem!), é um pouco demais esperar até a página duzentos pra começar o que devia ter começado lá onde se começa um livro, nas primeiras páginas. A partir daí, o romance pára de entrar em todas as ruas que encontra e finalmente segue uma linha razoavelmente reta. Até senti algum interesse de saber o desfecho do suspense, quem era o assassino, porquê, esses detalhes que diferenciam um livro de mistério de outro. Só que já era tarde demais, várias vezes voltei as páginas para me lembrar o nome de um personagem, que era ele, por que estavam falando dele. Os nomes parecidos e o português de Portugal não ajudam muito. Alguns autores estrangeiros, normalmente os americanos, têm uma mania muito chata de colocar personagens com dois nomes como, por exemplo, Jack Smith, até aí tudo bem, mas tem horas que se diz Jack saiu, depois vem Smith voltou. Vaí aí um parentêse da minha opinião sobre esse hábito ( Repetir nome não é falta de vocabulário, é demonstração de clareza, o leitor deve ficar ansioso pra saber o final do livro e não de quem o autor está falando) Pronto, parêntese feito, volto ao céu azul de Viegas, onde a gente se perde e não se importa muito em se encontrar de volta, pois o caminho está tão bonito...Não é um romance empolgante, não é um suspense intrigante, mas mesmo assim, a gente tem vontade de continuar lendo, talvez por não acreditar que um texto tão bom simplesmente não vai dar em nada. Apesar dessa decepção, Viegas nos deixa um pouco poéticos e não posso deixar de lembrar daquele música: “Se eu quiser falar com Deus tenho que dar às costas, caminhar, decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar.”
Gisela Cesario
Crítica: Bom, no sobre o que me deu vontade de escrever “boa pergunta”.
Eu mesma me fiz essa pergunta várias vezes durante o romance. Com uma prosa bem envolvente, Viegas vai nos envolvendo pra não dizer nos enrolando e mistério que é bom, necas. Por ter um texto tão agradável, não chega a ser nenhum sacríficio ler as bem traçadas linhas desse autor, mas sobre o quê era mesmo que estávamos falando? É isso que acontece. A gente esquece o objetivo do livro se é que existe algum objetivo, se é que precisa existir algum objetivo num livro além do prazer de ler. Ou não. Um Céu Demasiado Azul é assim,ofuscante. O céu é tão azul que a beleza dessas descrições, das histórias paralelas ofusca o mal iluminado mistério. Sabe quando você entra num ônibus que dá tanta volta que te faz esquecer aonde estava indo? Dizer isso pode parecer meio vago, mas aí vai um dado concreto: os dois personagens principais somente se reencontram na página duzentos. Pelo amor de Deus, a história se baseia no reencontro deles ( leiam a orelha e comprovem!), é um pouco demais esperar até a página duzentos pra começar o que devia ter começado lá onde se começa um livro, nas primeiras páginas. A partir daí, o romance pára de entrar em todas as ruas que encontra e finalmente segue uma linha razoavelmente reta. Até senti algum interesse de saber o desfecho do suspense, quem era o assassino, porquê, esses detalhes que diferenciam um livro de mistério de outro. Só que já era tarde demais, várias vezes voltei as páginas para me lembrar o nome de um personagem, que era ele, por que estavam falando dele. Os nomes parecidos e o português de Portugal não ajudam muito. Alguns autores estrangeiros, normalmente os americanos, têm uma mania muito chata de colocar personagens com dois nomes como, por exemplo, Jack Smith, até aí tudo bem, mas tem horas que se diz Jack saiu, depois vem Smith voltou. Vaí aí um parentêse da minha opinião sobre esse hábito ( Repetir nome não é falta de vocabulário, é demonstração de clareza, o leitor deve ficar ansioso pra saber o final do livro e não de quem o autor está falando) Pronto, parêntese feito, volto ao céu azul de Viegas, onde a gente se perde e não se importa muito em se encontrar de volta, pois o caminho está tão bonito...Não é um romance empolgante, não é um suspense intrigante, mas mesmo assim, a gente tem vontade de continuar lendo, talvez por não acreditar que um texto tão bom simplesmente não vai dar em nada. Apesar dessa decepção, Viegas nos deixa um pouco poéticos e não posso deixar de lembrar daquele música: “Se eu quiser falar com Deus tenho que dar às costas, caminhar, decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada do que eu pensava encontrar.”
Gisela Cesario
sexta-feira, janeiro 27, 2006
Berenice procura - Luiz Alfredo Garcia Rosa
Sobre o quê: O assassinato de um travesti em Copacabana desperta o interesse de Berenice, taxista da área, quando um sem-teto parece estar sendo envolvido injustamente no caso. Ela, mesmo com a total desaprovação do ex-marido, que é jornalista policial, resolve investigar o caso.
Crítica: Não gosto de falar mal de gente, falar mal de livro então é pior ainda.
“Berenice Procura” começa bem (já adivinhou que aí vem bomba, né? E vem mesmo), começa tão bem que a gente desconfia. Com um ritmo incrivelmente intenso, a primeira metade do livro faz uma grande promessa que a segunda não consegue, nem de longe, cumprir. Vamos então falar da primeira parte que ela merece. Luiz Alfredo nos apresenta um personagem chamado Russo, um sem-teto que passou a vida toda nas ruas de Copacabana e, hoje, com 30 e poucos anos, conhece como ninguém não só as esquinas mas os bueiros e subterrâneos do bairro. Tanto que dorme nas galerias inacabadas do metrô. As ruas existem mesmo, as galerias também, meninos e adultos como Russo certamente existem, a gente pode vê-los a todo instante em Copacabana. Isso, pra quem mora no Rio e sabe do que o autor está falando, é certamente fascinante, não sei pra quem não conhece, mas eu, quando estava no meio do livro, quase subi a pedra onde termina a Rua Constante Ramos pra ver se tinha uma entrada para uma galeria do metrô ali. Essa é a primeira metade e um pouco mais do livro. Instigante, irresistível, pulsante e todos os adjetivos cabíveis àqueles mistérios que talvez só a Agatha Christie tenha escrito. Ou o Luiz Alfredo tinha escrito o melhor policial brasileiro que eu conhecia ou eu ia me decepcionar. Infelizmente foi a segunda opção. Perto do final, o que era um ritmo intenso se torna um atropelamento de fatos, como se diz, coisas estranhas começam a acontecer. Acho que o ponto de inflexão é quando a Berenice resolve começar a seguir o Russo e depois resolve falar com ele, ainda explicando ao rapaz seu grande medo que uma injustiça seja cometida. Isso não tem cabimento. Não vou esmiuçar os motivos, mas quem ler vai, possivelmente, concordar comigo, não tem cabimento um personagem solitário que vive na sua tomar ares de justiceiro de repente e ainda mais porque não há ameaça real alguma pairando sobre nosso anti-herói. Depois que ela tem uma noite tórrida de amor com ele no túnel inacabado do metrô, aí tudo vai pro buraco mesmo, com o perdão do trocadilho, eu não devia dizer mais nada, mas se eu disser, você acredita que o ex-marido ciumento corta com os dois lados e, talvez, tenha tido um caso com o travesti assassinado? Isso até poderia ser interessante, não fosse a aparente pressa ou desespero de terminar o livro que começa a ficar sem pé nem cabeça e termina tão abruptamente que a gente vira a página procurando o resto da história.
O autor não colocou Espinosa, seu personagem policial de outros livros, nesse romance. Ainda bem. Ele não merecia. Não acho que o autor está numa fase ruim, não acho que ele perdeu a inspiração nem nada disso. Só acho que não dá pra acertar sempre. E dessa vez, ele errou feio.
Gisela Cesario
Crítica: Não gosto de falar mal de gente, falar mal de livro então é pior ainda.
“Berenice Procura” começa bem (já adivinhou que aí vem bomba, né? E vem mesmo), começa tão bem que a gente desconfia. Com um ritmo incrivelmente intenso, a primeira metade do livro faz uma grande promessa que a segunda não consegue, nem de longe, cumprir. Vamos então falar da primeira parte que ela merece. Luiz Alfredo nos apresenta um personagem chamado Russo, um sem-teto que passou a vida toda nas ruas de Copacabana e, hoje, com 30 e poucos anos, conhece como ninguém não só as esquinas mas os bueiros e subterrâneos do bairro. Tanto que dorme nas galerias inacabadas do metrô. As ruas existem mesmo, as galerias também, meninos e adultos como Russo certamente existem, a gente pode vê-los a todo instante em Copacabana. Isso, pra quem mora no Rio e sabe do que o autor está falando, é certamente fascinante, não sei pra quem não conhece, mas eu, quando estava no meio do livro, quase subi a pedra onde termina a Rua Constante Ramos pra ver se tinha uma entrada para uma galeria do metrô ali. Essa é a primeira metade e um pouco mais do livro. Instigante, irresistível, pulsante e todos os adjetivos cabíveis àqueles mistérios que talvez só a Agatha Christie tenha escrito. Ou o Luiz Alfredo tinha escrito o melhor policial brasileiro que eu conhecia ou eu ia me decepcionar. Infelizmente foi a segunda opção. Perto do final, o que era um ritmo intenso se torna um atropelamento de fatos, como se diz, coisas estranhas começam a acontecer. Acho que o ponto de inflexão é quando a Berenice resolve começar a seguir o Russo e depois resolve falar com ele, ainda explicando ao rapaz seu grande medo que uma injustiça seja cometida. Isso não tem cabimento. Não vou esmiuçar os motivos, mas quem ler vai, possivelmente, concordar comigo, não tem cabimento um personagem solitário que vive na sua tomar ares de justiceiro de repente e ainda mais porque não há ameaça real alguma pairando sobre nosso anti-herói. Depois que ela tem uma noite tórrida de amor com ele no túnel inacabado do metrô, aí tudo vai pro buraco mesmo, com o perdão do trocadilho, eu não devia dizer mais nada, mas se eu disser, você acredita que o ex-marido ciumento corta com os dois lados e, talvez, tenha tido um caso com o travesti assassinado? Isso até poderia ser interessante, não fosse a aparente pressa ou desespero de terminar o livro que começa a ficar sem pé nem cabeça e termina tão abruptamente que a gente vira a página procurando o resto da história.
O autor não colocou Espinosa, seu personagem policial de outros livros, nesse romance. Ainda bem. Ele não merecia. Não acho que o autor está numa fase ruim, não acho que ele perdeu a inspiração nem nada disso. Só acho que não dá pra acertar sempre. E dessa vez, ele errou feio.
Gisela Cesario
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Gostos Adquiridos - Peter Mayle
Sobre o quê: Peter Mayle é um redator publicitário londrino que abandou a vida dura das agências para se dedicar a descobrir as delícias de morar na Provence, interior da França. Desde então, ele nos presenteia com histórias dessa nova vida. Em Gostos Adquiridos, a dura missão do autor é revelar aos pobres mortais os hábitos e manias dos milionários.
Crítica: Sem querer puxar a sardinha para a minha brasinha, redatores publicitários podem não ser os melhores escritores do mundo, mas ninguém melhor para fazer um texto falando bem, ou seja, vendendo alguma coisa. E que texto delicioso tem Peter Mayle! Não sei que gosto têm trufas nem 99% dos alimentos e bebidas que ele descreve nos seus livros, mas acho que não quero saber, quero pensar que tudo é tão suculento, suculento mesmo, quanto esse texto tão gostoso.
Se o autor já era ótimo falando de coisas que a gente não sabe se são boas ou não, dá pra imaginar o que acontece quando ele resolve falar de coisas que a gente sabe que são maravilhosas apesar de nunca ter experimentado. Exemplo: passear de limusine em Nova Iorque, sair de jato pela Europa para escolher em que restaurante vai almoçar, fazer sapatos sob medida escolhendo todos os detalhes. Até quem nunca sonhou em ser milionário, se é que essa alma existe, tem vontade de sair correndo para fazer uma fezinha na loto depois de alguns capítulos. Mas não pense que Peter Mayle faz uma ode ao dinheiro e ao materialismo, ele mostra muito bem que nem tudo são flores na vida de um milionário. Pode acontecer, como ele relata, de um milionário pegar seu jornal matinal para ler e descobrir que ele não foi passado corretamente. Está enrugado! E pode acontecer de ser na página favorita dele! Que horror!Usando esse tipo de ironia, na verdade o autor nos mostra a tendência de todo milionário, e de todo mundo que tem mais do que precisa, de fazer imensas tempestades em pequenos copos de água. Atire a primeira colherzinha de prata quem nunca se revoltou com um cafezinho previamente açurado no qual se pretendia colocar adoçante ou nada mesmo. Somos todos uns fúteis bobocas. Só que uns tem mais dinheiro, muito mais dinheiro e por isso podem ser ainda mais fúteis e mais bobocas. Além disso, Peter nos mostra, que esse dinheiro, contrariando o dito popular, pode sim trazer felicidade, basta saber usar. Por isso, Gostos Adquiridos também poderia se chamar Manual do Milionário, para pessoa saber o que fazer com seu dinheiro em vez de ficar só reclamando dos jornais enrugados.
É uma leitura fascinante. Leve. Acompanha um drink na praia ou na piscina ou no sofá mesmo do mesmo jeito que um prato de petiscos, você vai consumindo e quando vê já acabou. Passou saborosamente e você nem sentiu. Assim como seria fácil devorar vários pratos de petiscos com vários drinks, seria fácil fazer o mesmo com vários livros como esse. Que tratam de assuntos tão pulsantes quanto a escolha de uma camisa na alfaitaria mais luxuosa de Londres. O livro tem cada sugestão maravilhosa para um rico indeciso passar seus dias. Provavelmente, você não terá dinheiro pra experimentar nenhuma delas, mas com certeza vai usar sua imaginação pra isso, viu? Ë a literatura fazendo seu cérebro trabalhar, pelo menos até seu cérebro ganhar tanto dinheiro que possa tirar férias.
Claro que se Peter Mayle fosse mulher, como a crítica que vos fala, ele ainda encontraria uma incrível gama de opções nos salões de beleza e spas de relaxamento ( os meus preferidos): maassagens indianas, pedras quentes, scrubs, banhos de cleóprata...ah se eu começar a falar não páro mais. Daria um livro. Quem sabe o editor do Peter Mayle não se interessa? É um trabalho duro, mas, se alguém tem que fazer, eu faço. O pobre Peter já deve estar cansado dessa vida de vinhos raros e paparicos. Urge que ele arrume uma ajudante. Já. E para finalizar a crítica, resta a nos mortais saber que um dos grandes prazeres da vida não custa tão caro. Ler um bom livro. Exatamente como esse.
Gisela Cesario
Crítica: Sem querer puxar a sardinha para a minha brasinha, redatores publicitários podem não ser os melhores escritores do mundo, mas ninguém melhor para fazer um texto falando bem, ou seja, vendendo alguma coisa. E que texto delicioso tem Peter Mayle! Não sei que gosto têm trufas nem 99% dos alimentos e bebidas que ele descreve nos seus livros, mas acho que não quero saber, quero pensar que tudo é tão suculento, suculento mesmo, quanto esse texto tão gostoso.
Se o autor já era ótimo falando de coisas que a gente não sabe se são boas ou não, dá pra imaginar o que acontece quando ele resolve falar de coisas que a gente sabe que são maravilhosas apesar de nunca ter experimentado. Exemplo: passear de limusine em Nova Iorque, sair de jato pela Europa para escolher em que restaurante vai almoçar, fazer sapatos sob medida escolhendo todos os detalhes. Até quem nunca sonhou em ser milionário, se é que essa alma existe, tem vontade de sair correndo para fazer uma fezinha na loto depois de alguns capítulos. Mas não pense que Peter Mayle faz uma ode ao dinheiro e ao materialismo, ele mostra muito bem que nem tudo são flores na vida de um milionário. Pode acontecer, como ele relata, de um milionário pegar seu jornal matinal para ler e descobrir que ele não foi passado corretamente. Está enrugado! E pode acontecer de ser na página favorita dele! Que horror!Usando esse tipo de ironia, na verdade o autor nos mostra a tendência de todo milionário, e de todo mundo que tem mais do que precisa, de fazer imensas tempestades em pequenos copos de água. Atire a primeira colherzinha de prata quem nunca se revoltou com um cafezinho previamente açurado no qual se pretendia colocar adoçante ou nada mesmo. Somos todos uns fúteis bobocas. Só que uns tem mais dinheiro, muito mais dinheiro e por isso podem ser ainda mais fúteis e mais bobocas. Além disso, Peter nos mostra, que esse dinheiro, contrariando o dito popular, pode sim trazer felicidade, basta saber usar. Por isso, Gostos Adquiridos também poderia se chamar Manual do Milionário, para pessoa saber o que fazer com seu dinheiro em vez de ficar só reclamando dos jornais enrugados.
É uma leitura fascinante. Leve. Acompanha um drink na praia ou na piscina ou no sofá mesmo do mesmo jeito que um prato de petiscos, você vai consumindo e quando vê já acabou. Passou saborosamente e você nem sentiu. Assim como seria fácil devorar vários pratos de petiscos com vários drinks, seria fácil fazer o mesmo com vários livros como esse. Que tratam de assuntos tão pulsantes quanto a escolha de uma camisa na alfaitaria mais luxuosa de Londres. O livro tem cada sugestão maravilhosa para um rico indeciso passar seus dias. Provavelmente, você não terá dinheiro pra experimentar nenhuma delas, mas com certeza vai usar sua imaginação pra isso, viu? Ë a literatura fazendo seu cérebro trabalhar, pelo menos até seu cérebro ganhar tanto dinheiro que possa tirar férias.
Claro que se Peter Mayle fosse mulher, como a crítica que vos fala, ele ainda encontraria uma incrível gama de opções nos salões de beleza e spas de relaxamento ( os meus preferidos): maassagens indianas, pedras quentes, scrubs, banhos de cleóprata...ah se eu começar a falar não páro mais. Daria um livro. Quem sabe o editor do Peter Mayle não se interessa? É um trabalho duro, mas, se alguém tem que fazer, eu faço. O pobre Peter já deve estar cansado dessa vida de vinhos raros e paparicos. Urge que ele arrume uma ajudante. Já. E para finalizar a crítica, resta a nos mortais saber que um dos grandes prazeres da vida não custa tão caro. Ler um bom livro. Exatamente como esse.
Gisela Cesario
A guerra dos vegetais - FILME
Sobre o quê: Numa cidade cuja principal atividade é o cultivo de vegetais, acontece todo ano a grande competição para eleger o maior vegetal de todos. Este ano, porém, a competição está ameaçada por um predador desconhecido que destrói as plantanções. Somente o exterminador de predadores e seu fiel cão podem salvar a cidade e a competição.
Crítica: Calma, você não enlouqueceu. Pode também ser que o nome do filme seja a guerra dos legumes, não lembro mais. Mas isso não importa. Legumes, vegetais, resolvi botar críticas, ou melhor, resenhas de filmes, aqui também. Vou estrear com a Guerra dos Legumes, dos Vegetais ou a Revolta, sei lá. Tá achando rídiculo? Então vai assisitir o horário político para ver se você vota sim ou não pelo desarmamento. Pronto, continuando, a Guerra dos Vegetais, vamos chamá-lo assim para não fazer mais confusão, é um filme bem adulto. Darei exemplos ao longo da resenha, mas posso adiantar que fui a pessoa que mais riu no filme. Tudo bem que a platéia do cinema era formada por mim, duas babás e cinco crianças. As crianças não entendiam as piadas, nem era possível, não eram piadas infantis, eram para um adulto bobo ou bem humorado, meu caso. Vou chegar no exemplo: tem uma hora que o cachorro está dirigindo (vejam bem, é um desenho, o cachorro dirige, mas não fala, claro, cachorro não fala!) e, dirigindo, passa por um monte de obstáculos típicos de desenho animado, derruba muros, bate em postes etc, mas, qando o carro pára, o cão está puto ( desculpem mas se eu dissesse com raiva podiam entender que ele estava doente), bom, está puto e dá um soco no volante, aí, só aí, depois de tanto acidente, o air bag explode na cara dele. Nem precisa dizer que só eu ri, as babás não tinham carro e as crianças não sabiam o que era air bag. Tem outros exemplos. Mas não vou entregar de bandeja. Tá bom: só mais um, outra hora o cachorro pega um carrinho de brinquedo, desses que a criança sobe e fica botando moedas para o carrinho funcionar, comum em shoppings. O cachorro pega um carro desses e sai voando, perseguido pelo cachorro adversário, aí a luzinha acende, o carro precisa de mais moedas, os dois cachorros se olham, o adversário procura, procura, procura e finalmente acha uma moeda no bolso (bolso, isso mesmo), dá ao cachorro que está dirigindo e eles continuam a perseguição. Fala aí...Não é um filme adulto?
Antigamente as pessoas adultas iam ao cinema assitir ao novo filme do pato Donald ou tom e jerry, hoje se acha que desenho é coisa de criança. Quem inventou essa imbecilidade? Então quer dizer que Jim Carrey é adulto? Eu acho o pato Donald mais sério. Peraí, eu adoro o Jim Carrey, só que acho mais fácil ele ser infantil que a guerra dos vegetais ou procurando nemo.
Nesses desenhos, há situações que só são engraçadas para adultos mesmo, sátiras de um cotiadiano que não é o cotidiando de uma criança, até porque criança não tem cotidiano, cada dia uma aventura.
Não me incomodei com o barulho que as cinco crianças fizeram na sessao de 15 horas do cinema, achei bonitinho que elas também estivessem gostando do filme. Eles gostavam de uma outra forma, como gostariam de um desenho do he-man. E talvez isso seja o maior encanto. Nem tão adulto como um south park, nem tão criança como um power rangers. Apenas muito do cacete. Muito engraçado.
Não tenha vergonha. Funde um fã cluble, defenda essa idéia. Mas se não der, arraste seu sobrinho e cole um silver tape na boca da gracinha. Ele vai adorar. E você, com certeza, vai adorar mais ainda.
Gisela Cesario
Crítica: Calma, você não enlouqueceu. Pode também ser que o nome do filme seja a guerra dos legumes, não lembro mais. Mas isso não importa. Legumes, vegetais, resolvi botar críticas, ou melhor, resenhas de filmes, aqui também. Vou estrear com a Guerra dos Legumes, dos Vegetais ou a Revolta, sei lá. Tá achando rídiculo? Então vai assisitir o horário político para ver se você vota sim ou não pelo desarmamento. Pronto, continuando, a Guerra dos Vegetais, vamos chamá-lo assim para não fazer mais confusão, é um filme bem adulto. Darei exemplos ao longo da resenha, mas posso adiantar que fui a pessoa que mais riu no filme. Tudo bem que a platéia do cinema era formada por mim, duas babás e cinco crianças. As crianças não entendiam as piadas, nem era possível, não eram piadas infantis, eram para um adulto bobo ou bem humorado, meu caso. Vou chegar no exemplo: tem uma hora que o cachorro está dirigindo (vejam bem, é um desenho, o cachorro dirige, mas não fala, claro, cachorro não fala!) e, dirigindo, passa por um monte de obstáculos típicos de desenho animado, derruba muros, bate em postes etc, mas, qando o carro pára, o cão está puto ( desculpem mas se eu dissesse com raiva podiam entender que ele estava doente), bom, está puto e dá um soco no volante, aí, só aí, depois de tanto acidente, o air bag explode na cara dele. Nem precisa dizer que só eu ri, as babás não tinham carro e as crianças não sabiam o que era air bag. Tem outros exemplos. Mas não vou entregar de bandeja. Tá bom: só mais um, outra hora o cachorro pega um carrinho de brinquedo, desses que a criança sobe e fica botando moedas para o carrinho funcionar, comum em shoppings. O cachorro pega um carro desses e sai voando, perseguido pelo cachorro adversário, aí a luzinha acende, o carro precisa de mais moedas, os dois cachorros se olham, o adversário procura, procura, procura e finalmente acha uma moeda no bolso (bolso, isso mesmo), dá ao cachorro que está dirigindo e eles continuam a perseguição. Fala aí...Não é um filme adulto?
Antigamente as pessoas adultas iam ao cinema assitir ao novo filme do pato Donald ou tom e jerry, hoje se acha que desenho é coisa de criança. Quem inventou essa imbecilidade? Então quer dizer que Jim Carrey é adulto? Eu acho o pato Donald mais sério. Peraí, eu adoro o Jim Carrey, só que acho mais fácil ele ser infantil que a guerra dos vegetais ou procurando nemo.
Nesses desenhos, há situações que só são engraçadas para adultos mesmo, sátiras de um cotiadiano que não é o cotidiando de uma criança, até porque criança não tem cotidiano, cada dia uma aventura.
Não me incomodei com o barulho que as cinco crianças fizeram na sessao de 15 horas do cinema, achei bonitinho que elas também estivessem gostando do filme. Eles gostavam de uma outra forma, como gostariam de um desenho do he-man. E talvez isso seja o maior encanto. Nem tão adulto como um south park, nem tão criança como um power rangers. Apenas muito do cacete. Muito engraçado.
Não tenha vergonha. Funde um fã cluble, defenda essa idéia. Mas se não der, arraste seu sobrinho e cole um silver tape na boca da gracinha. Ele vai adorar. E você, com certeza, vai adorar mais ainda.
Gisela Cesario
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Cuba e a Noite - Pico Iyer
Sobre o quê: Em uma de suas muitas visitas a Cuba, um fotógrafo americano se apaixona por uma cubana, mas a situação política do país não permite que eles tenham um romance normal. Isso faz com que ele fique sempre em dúvida se a cubana quer realmente casar com ele ou apenas fugir de Cuba.
Crítica: Existem coisas às quais a gente só dá valor quando perde. Pessoas de quem a gente só percebe que gosta depois que vão embora. E livros que a gente sente mais vontade de ler depois do final. Talvez porque só o final, só as últimas palavras revelem a beleza do que passou e você não viu. E agora, com essa beleza nos olhos, o leitor se sente pronto a ler tudo de novo, dessa vez imbuído do espírito do final. Foi isso que fiz com Cuba e a Noite. Só que talvez tenha esperado tempo demais. Foram anos entre o final e o recomeço. O espírito se perdeu. Comecei a reler desinteressada, desconfiada de mim mesmo e do livro.
Não vou negar que, nas primeiras páginas, a história parece pegar no tranco. A visão do autor parece americana demais, a visão da cubana parece americana demais, tudo parece americano demais, cheguei a pensar que eu não entendia nada de política quando era mais nova e gostei desse livro. Mas, vencendo os buracos do caminho, descobri que esse negócio de americano demais estava mais na minha cabeça que na história. Estamos todos com um pé atrás com os USA desde a guerra do Iraque, mas não vamos punir Cuba e a Noite por isso. Enquanto Richard, o fotógrafo, vai se deixando conquistar pela cubana e pelas contradições desse país que nos lembra o nosso Brasil, a gente vai se deixando conquistar pela história, pelos personagens que já não parecem nem cubanos nem americanos e começam a lembrar nossos conhecidos. Mães preocupadas, gente que sempre dá um jeitinho em tudo, policiais não muito honestos e aquelas pessoas incríveis que sempre conseguem transformar a pior das situações em uma festa. É impossível não ficar deliciosamente embriagado, não só com rum, mas com os desejos revolucionários, as praias, as poesias de Martí...
E é aí, justamente quando tudo começa a ficar quase estranhamente perfeito, aí é que vem o momento: o livro acaba e eu fico do mesmo jeito que da primeira vez. Com vontade de ler de novo. Agora já sabendo o quanto de sensibilidade, pureza e beleza existe nesse romance. Mas eu tenho outras coisas a fazer na vida. Não posso passar a existência relendo Cuba e a Noite. Só que tenho certeza, algum dia no futuro vou passar por uma prateleira, que pode ser até a minha aqui de casa e ele vai me chamar outra vez. E outra vez eu vou reler pra me lembrar do que eu tinha gostado tanto. E outra vez só vou descobrir no final. E outra vez vou querer reler. Cuba e a noite é a vida. Feita de encontros importantes que a gente só dá importância quando se tornam despedidas.
Gisela Cesario
Crítica: Existem coisas às quais a gente só dá valor quando perde. Pessoas de quem a gente só percebe que gosta depois que vão embora. E livros que a gente sente mais vontade de ler depois do final. Talvez porque só o final, só as últimas palavras revelem a beleza do que passou e você não viu. E agora, com essa beleza nos olhos, o leitor se sente pronto a ler tudo de novo, dessa vez imbuído do espírito do final. Foi isso que fiz com Cuba e a Noite. Só que talvez tenha esperado tempo demais. Foram anos entre o final e o recomeço. O espírito se perdeu. Comecei a reler desinteressada, desconfiada de mim mesmo e do livro.
Não vou negar que, nas primeiras páginas, a história parece pegar no tranco. A visão do autor parece americana demais, a visão da cubana parece americana demais, tudo parece americano demais, cheguei a pensar que eu não entendia nada de política quando era mais nova e gostei desse livro. Mas, vencendo os buracos do caminho, descobri que esse negócio de americano demais estava mais na minha cabeça que na história. Estamos todos com um pé atrás com os USA desde a guerra do Iraque, mas não vamos punir Cuba e a Noite por isso. Enquanto Richard, o fotógrafo, vai se deixando conquistar pela cubana e pelas contradições desse país que nos lembra o nosso Brasil, a gente vai se deixando conquistar pela história, pelos personagens que já não parecem nem cubanos nem americanos e começam a lembrar nossos conhecidos. Mães preocupadas, gente que sempre dá um jeitinho em tudo, policiais não muito honestos e aquelas pessoas incríveis que sempre conseguem transformar a pior das situações em uma festa. É impossível não ficar deliciosamente embriagado, não só com rum, mas com os desejos revolucionários, as praias, as poesias de Martí...
E é aí, justamente quando tudo começa a ficar quase estranhamente perfeito, aí é que vem o momento: o livro acaba e eu fico do mesmo jeito que da primeira vez. Com vontade de ler de novo. Agora já sabendo o quanto de sensibilidade, pureza e beleza existe nesse romance. Mas eu tenho outras coisas a fazer na vida. Não posso passar a existência relendo Cuba e a Noite. Só que tenho certeza, algum dia no futuro vou passar por uma prateleira, que pode ser até a minha aqui de casa e ele vai me chamar outra vez. E outra vez eu vou reler pra me lembrar do que eu tinha gostado tanto. E outra vez só vou descobrir no final. E outra vez vou querer reler. Cuba e a noite é a vida. Feita de encontros importantes que a gente só dá importância quando se tornam despedidas.
Gisela Cesario
domingo, dezembro 04, 2005
O segredo de Emma Corrignan - Sophie Kinsella
Sobre o quê – Emma é uma garota inglesa comum, pesa mais do que as pessoas imaginam, sabe menos do que o patrão imagina etc. Um dia, numa viagem de avião onde ela pensa que vai morrer, resolve contar todos os seus segredos ao cara sentado ao seu lado, o que ela não sabe é que esse cara é o dono da empresa em que ela trabalha.
Crítica – Escrever por inspiração e escrever sob encomenda sempre foram tidos como coisas opostas, um é o ápice da nobreza, a autêntica manifestação da arte nas pontas dos dedos de um ser abençoado chamado escritor. Outro é uma necessidade financeira, olhado com desdém e que jamais deveria ser comparado com arte. Por que estou dizendo isso? Porque Sophie Kinsella não conhece essa barreira. Ela simplesmente ignora essas definições. Por isso, seu primeiro livro, provável fruto de simples inspiração, é simplesmente tão genial quanto o segundo que é tão genial quanto o terceiro que é, PASMEM, tão absolutamente genial quanto “O segredo de Emma Corrignan”. Como ela faz isso? Não sei. Isso deve ser o segredo de Sophie Kinsela. Depois do sucesso de “Os delírios de consumo de Becky bloom” ninguém esperava uma coisa igual da autora, nem eu. O segundo me surpreendeu, o terceiro idem, mas o quarto, no qual ela abandona a sua personagem consumista e parte para outra, o quarto me deixou aterrorizada. Sophie tem poderes sobrenaturais. As palavras dessa autora nos enfeitiçam de uma forma que 300 ou 400 páginas de repente parecem um bilhete. De repente, nada mais importa, nem a sua própria vida, só faz diferença saber qual será a próxima confusão do romance. É incrível como ela consegue manter um suspense permanente, mais concreto e perene que a maioria dos livros policiais, uma situação totalmente inusitada vai se sucedendo a outra até o final da história. E o leitor se pega querendo saber só como vai terminar determinada confusão e depois vai tratar da sua própria vida, mas quando vê, a confusão não termina nunca e quando mais confusão, mais a gente gosta, mais páginas a gente quer o livro tenha. Vou confessar. Nas últimas 50 páginas dos livros de Sophie, eu tento diminuir o ritmo, como um praticante de sexo tântrico literário, tento aumentar a distância entre eu e o final. Sei que a última linha vai me provocar um enorme vazio, uma solidão gigantesca, uma sensação de abandono completo. Terminar um livro dela é como ser expulsa do útero materno, passa-se de um mundo de sonho a nossa realidade inóspita. Só uma coisa nos consola. Sophie é muito, muito jovem. Se Deus quiser e nos rezarmos bastante, ela ainda há de escrever muito.
Gisela Cesario
Crítica – Escrever por inspiração e escrever sob encomenda sempre foram tidos como coisas opostas, um é o ápice da nobreza, a autêntica manifestação da arte nas pontas dos dedos de um ser abençoado chamado escritor. Outro é uma necessidade financeira, olhado com desdém e que jamais deveria ser comparado com arte. Por que estou dizendo isso? Porque Sophie Kinsella não conhece essa barreira. Ela simplesmente ignora essas definições. Por isso, seu primeiro livro, provável fruto de simples inspiração, é simplesmente tão genial quanto o segundo que é tão genial quanto o terceiro que é, PASMEM, tão absolutamente genial quanto “O segredo de Emma Corrignan”. Como ela faz isso? Não sei. Isso deve ser o segredo de Sophie Kinsela. Depois do sucesso de “Os delírios de consumo de Becky bloom” ninguém esperava uma coisa igual da autora, nem eu. O segundo me surpreendeu, o terceiro idem, mas o quarto, no qual ela abandona a sua personagem consumista e parte para outra, o quarto me deixou aterrorizada. Sophie tem poderes sobrenaturais. As palavras dessa autora nos enfeitiçam de uma forma que 300 ou 400 páginas de repente parecem um bilhete. De repente, nada mais importa, nem a sua própria vida, só faz diferença saber qual será a próxima confusão do romance. É incrível como ela consegue manter um suspense permanente, mais concreto e perene que a maioria dos livros policiais, uma situação totalmente inusitada vai se sucedendo a outra até o final da história. E o leitor se pega querendo saber só como vai terminar determinada confusão e depois vai tratar da sua própria vida, mas quando vê, a confusão não termina nunca e quando mais confusão, mais a gente gosta, mais páginas a gente quer o livro tenha. Vou confessar. Nas últimas 50 páginas dos livros de Sophie, eu tento diminuir o ritmo, como um praticante de sexo tântrico literário, tento aumentar a distância entre eu e o final. Sei que a última linha vai me provocar um enorme vazio, uma solidão gigantesca, uma sensação de abandono completo. Terminar um livro dela é como ser expulsa do útero materno, passa-se de um mundo de sonho a nossa realidade inóspita. Só uma coisa nos consola. Sophie é muito, muito jovem. Se Deus quiser e nos rezarmos bastante, ela ainda há de escrever muito.
Gisela Cesario
terça-feira, novembro 15, 2005
O espião que saiu do frio - John Le Carré
Sobre o quê: Tendo como cenário a Alemanha dividida pelo muro de Berlim, um espião inglês desempenha uma complicada missão em vários países da europa. Seu nome é Alec Leamas e um dos maiores desafios de sua missão é viver diferentes personagens sem se transformar em um deles.
Crítica: Primeiro de tudo, há que se dizer que é um livro complicado. Claro, toda história que tem como pano de fundo a Alemanha, Rússia ou qualquer outro país onde mais de três consoantes juntas podem ser usadas numa palavra, exige, no mínimo, uma dose de atenção maior do leitor. As organizações têm nomes impronunciáveis, as cidades idem, mas a genialidade e o sentimento de Jonh Lê Carré nos dão forças. É tão importante saber o que se passa na confusa mente do nosso agente secreto que encaramos os nomes dos lugares mais estapafúrdios como se fossem souzas e silvas. E tome Abteilung...Na verdade, tanta complicação esconde a história mais simples da humanidade. Um cara durão, capaz de beber até não cair, capaz de apanhar até não desmaiar, capaz de mentir até não se contradizer é pego numa grande armadilha. Não pela organização rival, mas pelo seu próprio coração. Toda sua força e experiência como agente secreto não são suficientes para evitar que ele se apaixone por um bibliotecária carinhosa e pura e dócil, como todas as mulheres merecedoras de um grande amor devem ser, que, só para não perder o rumo complicado da história, é participante do partido comunista. Uma presa fácil para as organizações criminosas que se digladiam pelo poder através de seus agentes secretos. Parece cansativo e é. O livro é uma maratona com obstáculos, mas atravessei todos eles com a esperança de ser a leitora também de uma linda história de amor. O final não é feliz. É cinza como imaginamos que a vida entre as duas alemanhas num dia frio deve ser. É escuro como a noite que esconde os espiões. É amargo como a vida de quem nunca pode assumir uma identidade normal. E, talvez por tudo isso, mereça ainda mais ser uma história de amor. Não daquelas com finais felizes. Mas daquelas com finais reais.
P. S. – Coincidências - Uma: No mesmo período, assisti ao “Jardineiro Fiel” , e descobri que era também de Jonh Lê Carré, Outra: No dia seguinte, assisti “Das coisas belas e sujas” e re-assisti “Alta Fidelidade”, e descobri que os dois são do mesmo diretor, Stephen Frears. A vida vem realmente aos pares, e não é só de havaiana...entendam isso como quiserem.
Gisela Cesario
Crítica: Primeiro de tudo, há que se dizer que é um livro complicado. Claro, toda história que tem como pano de fundo a Alemanha, Rússia ou qualquer outro país onde mais de três consoantes juntas podem ser usadas numa palavra, exige, no mínimo, uma dose de atenção maior do leitor. As organizações têm nomes impronunciáveis, as cidades idem, mas a genialidade e o sentimento de Jonh Lê Carré nos dão forças. É tão importante saber o que se passa na confusa mente do nosso agente secreto que encaramos os nomes dos lugares mais estapafúrdios como se fossem souzas e silvas. E tome Abteilung...Na verdade, tanta complicação esconde a história mais simples da humanidade. Um cara durão, capaz de beber até não cair, capaz de apanhar até não desmaiar, capaz de mentir até não se contradizer é pego numa grande armadilha. Não pela organização rival, mas pelo seu próprio coração. Toda sua força e experiência como agente secreto não são suficientes para evitar que ele se apaixone por um bibliotecária carinhosa e pura e dócil, como todas as mulheres merecedoras de um grande amor devem ser, que, só para não perder o rumo complicado da história, é participante do partido comunista. Uma presa fácil para as organizações criminosas que se digladiam pelo poder através de seus agentes secretos. Parece cansativo e é. O livro é uma maratona com obstáculos, mas atravessei todos eles com a esperança de ser a leitora também de uma linda história de amor. O final não é feliz. É cinza como imaginamos que a vida entre as duas alemanhas num dia frio deve ser. É escuro como a noite que esconde os espiões. É amargo como a vida de quem nunca pode assumir uma identidade normal. E, talvez por tudo isso, mereça ainda mais ser uma história de amor. Não daquelas com finais felizes. Mas daquelas com finais reais.
P. S. – Coincidências - Uma: No mesmo período, assisti ao “Jardineiro Fiel” , e descobri que era também de Jonh Lê Carré, Outra: No dia seguinte, assisti “Das coisas belas e sujas” e re-assisti “Alta Fidelidade”, e descobri que os dois são do mesmo diretor, Stephen Frears. A vida vem realmente aos pares, e não é só de havaiana...entendam isso como quiserem.
Gisela Cesario
quarta-feira, novembro 09, 2005
Mandrake - a bíblia e a bengala – Rubem Fonseca
Sobre o quê: Mandrake é um advogado criminal que já apareceu em dois livros: “E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto” e “A grande arte”. Agora o autor nos aproxima da vida pessoal e profissional e de Mandrake, contando suas diversas aventuras de detetive.
Crítica: Me perdoem se eu estiver errada (perdoem também esse começo ), continuo, mas esse livro não era para ser um romance, quer dizer, uma história só? Li na contracapa: “nova aventura de mistério e suspense”. Uma relação tão estreita quanto a de um livro com o leitor não pode começar com uma mentira. Senão a primeira coisa que o leitor sente é decepção. Sou fã de carteirinha do Rubem Fonseca, mas foi isso que senti quando percebi que o livro é quase um livro de contos, como as aventuras de Ed Mort. Claro que isso não desmerece em nada o livro, mas quem compra uma banana quer uma banana, por mais que goste de maçãs. Fruta por fruta, o livro também não é um abacaxi, mas precisava registrar esse fato que teria mudado minhas expectativas e conseqüentemente minhas opiniões, que é melhor eu dizer logo quais são. Vamos lá. Ninguém abre um livro do Rubem Fonseca sem um grande tesão. Como também sou fã de romances policiais, estava maravilhada com o fato de um de meus autores preferidos ter escrito um e mais maravilhada porque ele estava nas minhas mãos, pronto para ser devorado. Fui devorando até o meio quando percebi que havia uma grande divisão entre a bíblia e a bengala. São duas histórias distintas que tem o personagem principal, Mandrake, e alguns outros em comum, mas são duas e não uma como se induz o leitor a pensar. Se você compra um livro cujo nome é Romeu e Julieta, você não acha que primeiro vai ler a história do Romeu, depois a da Julieta, e, no meio da última, algumas outras. Isso doeu. E doeu mais porque é o Rubem Fonseca. Respirei fundo e me conformei. Não foi difícil porque o Mandrake é o personagem mais Rubem Fonseca de Rubem Fonseca, engraçado, cínico, amoral, o detetive por quem se apaixona todo aquele que ama histórias policiais. As do Mandrake são divertidas, mas (infelizmente) não têm a estrutura que um policial classe “A” deve ter. Principalmente a da bengala, onde há falhas que bons detetives de história de detetives certamente vão encontrar. Quer um conselho? Fique com a vida do Mandrake e esqueça os mistérios. Ele é o lado Rubem Fonseca do livro. Quer outro? Espere o próximo livro do autor e torça para que esse seja inteiramente Rubem Fonseca.
Gisela Cesario
Crítica: Me perdoem se eu estiver errada (perdoem também esse começo ), continuo, mas esse livro não era para ser um romance, quer dizer, uma história só? Li na contracapa: “nova aventura de mistério e suspense”. Uma relação tão estreita quanto a de um livro com o leitor não pode começar com uma mentira. Senão a primeira coisa que o leitor sente é decepção. Sou fã de carteirinha do Rubem Fonseca, mas foi isso que senti quando percebi que o livro é quase um livro de contos, como as aventuras de Ed Mort. Claro que isso não desmerece em nada o livro, mas quem compra uma banana quer uma banana, por mais que goste de maçãs. Fruta por fruta, o livro também não é um abacaxi, mas precisava registrar esse fato que teria mudado minhas expectativas e conseqüentemente minhas opiniões, que é melhor eu dizer logo quais são. Vamos lá. Ninguém abre um livro do Rubem Fonseca sem um grande tesão. Como também sou fã de romances policiais, estava maravilhada com o fato de um de meus autores preferidos ter escrito um e mais maravilhada porque ele estava nas minhas mãos, pronto para ser devorado. Fui devorando até o meio quando percebi que havia uma grande divisão entre a bíblia e a bengala. São duas histórias distintas que tem o personagem principal, Mandrake, e alguns outros em comum, mas são duas e não uma como se induz o leitor a pensar. Se você compra um livro cujo nome é Romeu e Julieta, você não acha que primeiro vai ler a história do Romeu, depois a da Julieta, e, no meio da última, algumas outras. Isso doeu. E doeu mais porque é o Rubem Fonseca. Respirei fundo e me conformei. Não foi difícil porque o Mandrake é o personagem mais Rubem Fonseca de Rubem Fonseca, engraçado, cínico, amoral, o detetive por quem se apaixona todo aquele que ama histórias policiais. As do Mandrake são divertidas, mas (infelizmente) não têm a estrutura que um policial classe “A” deve ter. Principalmente a da bengala, onde há falhas que bons detetives de história de detetives certamente vão encontrar. Quer um conselho? Fique com a vida do Mandrake e esqueça os mistérios. Ele é o lado Rubem Fonseca do livro. Quer outro? Espere o próximo livro do autor e torça para que esse seja inteiramente Rubem Fonseca.
Gisela Cesario
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