Sobre o quê: João Pedro é um guitarrista que namora uma cantora adolescente, líder de banda em que ele toca. Justamente no seu aniversário de 30 anos, a imprensa descobre o passado dele com álcool e drogas. Sob a ameaça de destruir a carreira da namorada, ele é obrigado a abandoná-la e reencontrar personagens do seu passado numa remota praia do Rio Grande do Sul.
Crítica: Tudo ia bem até que...Essa frase interminada bem poderia resumir tudo que vou dizer nessa crítica. A verdade é que não dá pra perceber direito quando o autor decide parar de escrever um romance e começar a escrever tudo que lhe der na telha, encontrando espaço inclusive pra conversar com o leitor, que, falo por mim, não estava a fim de papo e sim de saber o que ia acontecer.
Explico: O texto começa legalzinho, se dá pra lembrar que o autor é iniciante,essa lembrança se dissipa quando ele consegue voltar nossa atenção exclusivamente para a história de Jõao Pedro que reencontra a ex-namorada numa volta forçada ao sul do Brasil. Ela está casada com o melhor amigo dele e, para sua surpresa, ele descobre que seu rival ficou cego. Interessante, não é? Você quer saber o que vem depois? Desista. Depois não vem nada, o autor se perde e a gente fica tentando encontrá-lo até o fim do livro.
Com todos os personagens na praia de Cassino, a ex-namorada,o melhor amigo cego,o pai de João Pedro e até a namorada adolescente, o clima é daqueles filmes americanos de grandes revelações no natal da família mac gregor. Isso, todos sabemos, pode resultar em uma imensa xaropada ou numa história emocionante. Aqui não acontece nem uma coisa nem outra. Num certo momento do livro a gente se sente no meio de uma liquidação “o patrão ficou maluco”.
Faço questão de transcrever um pequenino trecho: “Então, largue esse livro de uma vez e cale sua boca no beijo de alguém..” Isso foi na página 143, eu não segui o conselho do autor e continuei até a 192 que onde o livro acaba. Veja bem, o livro, não a história. Essa, se é que alguma história foi contada, acaba algumas páginas antes. O que vem depois são dois apêndices. Por favor, não estou brincado. Nesses apêndices, temos reveladas as fontes de inspiração do autor, como diabos ele fez para escrever essa maravilha, inclusive qual música foi a trilha sonora do último páragrafo.
Realmente, é um livro inesquecível, pode-se acusar esse André de tudo, menos de modéstia. Além do trecho que transcrevi, muitos outros têm simplesmente a função de nos provocar, dizer que você caiu numa armadilha e vai ter que conversar com alguém que você não tem a menor idéia de quem seja. Mas se você vir Cassino Hotel numa livraria, faça o que eu devia ter feito e dê ouvidos ao que esse alguém diz: “largue esse livro de uma vez”.
Gisela Cesario
Este é um blog de crítica literária. O objetivo é puramente entretenimento. Todas as críticas refletem apenas a opinião e o gosto pessoal da autora do blog. Não há, em momento algum, pretensão de julgar a obra exposta. Se qualquer autor(a) se sentir ofendido por essas palavras, pedimos desculpas por nosso erro, pois certamente não escrevemos com esse intuito. PS - Eventualmente, você também poderá encontrar aqui resenhas de filmes
terça-feira, janeiro 16, 2007
segunda-feira, janeiro 15, 2007
A última sessão de cinema – Larry Mc Murtry
Sobre o quê – Sonny passa de adolescente a adulto em uma pequena cidade do Texas. Um lugar onde parentes, amigos e vizinhos se confundem. Assistir a filmes no único cinema da cidade é uma das poucas opções de lazer.
Crítica – Todo mundo já ouviu falar desse filme, tanto que talvez nem precise ver pra saber como é. Uma espécie de cine paradiso americano. Mas, como as palavras tem sempre algo a mais a nos dizer do que as imagens, achei que deveria buscar minha avaliação de a última sessão de cinema no livro que deu origem ao filme.
É uma daquelas obras que, pela linguagem cinematográfica, parece predestinada a virar filme. Mesmo sem ser excessivamente descritivo, as paisagens tornam-se claras e vivas a cada página. É possível sentir o vento seco no rosto, o ar irrespirável, mistura de deserto e solidão, que atinge os personagens.
Envolvente como uma novela, não é daqueles livros que a gente não consegue largar porque precisa saber o final. Na verdade, seria até bom se o final não chegasse. Se a adolescência de Sonny, os seus casos amorosos, os porres com os amigos, tudo isso durasse para sempre.
Claro, a última sessão de cinema é o fim do sonho e o ínicio da realidade que a vida adulta representa. A história de Sonny não é diferente da de qualquer jovem, viva ele em Talia, Nova Iorque ou Bangadlesh. Ele é apaixonado pela namorada do melhor amigo, que só é apaixonada pela própria beleza, que tem uma mãe alcoolátra, que já foi namorada de um cara legal, que hoje é um velho triste, dono do único salão de sinuca, que é onde todos se encontram. Sonny também tem um caso com a mulher do treinador de futebol, que é um homossexual enrustido, cuja esposa insatisfeita se satisfaz pela primeira vez com a traição. Enfim, a cidade de Sonny poderia ser a cidade de qualquer um.
Vista pelos olhos do adolescente, Talia é o mundo inteiro, sábado à noite é o único momento que importa, a cerveja que ele está bebendo jamais vai terminar, o filme nunca terá um the end e o beijo da garota que está com ele vai continuar até que o universo se dissolva.
Talvez por isso, o livro dá a impressão de não acabar. Não há um final como um destino reservado para cada personagem. É como se a câmera fosse se afastando e depois da útlima página a gente simplesmente não conseguisse mais ver a cidadezinha nem o que está acontecendo com o Sonny.
Quando estamos num lugar que parece parado no tempo, a ilusão da eternidade toma ares de realidade. O texto de Larry McMurty faz a gente sentir esse gostinho novamente, o gosto daquela bala de hortelã que ficou perdido em algum filme da adolescência. Uma sessão de um cinema que a gente não lembra o nome porque ninguém nos avisou que seria a última.
Gisela Cesario
Crítica – Todo mundo já ouviu falar desse filme, tanto que talvez nem precise ver pra saber como é. Uma espécie de cine paradiso americano. Mas, como as palavras tem sempre algo a mais a nos dizer do que as imagens, achei que deveria buscar minha avaliação de a última sessão de cinema no livro que deu origem ao filme.
É uma daquelas obras que, pela linguagem cinematográfica, parece predestinada a virar filme. Mesmo sem ser excessivamente descritivo, as paisagens tornam-se claras e vivas a cada página. É possível sentir o vento seco no rosto, o ar irrespirável, mistura de deserto e solidão, que atinge os personagens.
Envolvente como uma novela, não é daqueles livros que a gente não consegue largar porque precisa saber o final. Na verdade, seria até bom se o final não chegasse. Se a adolescência de Sonny, os seus casos amorosos, os porres com os amigos, tudo isso durasse para sempre.
Claro, a última sessão de cinema é o fim do sonho e o ínicio da realidade que a vida adulta representa. A história de Sonny não é diferente da de qualquer jovem, viva ele em Talia, Nova Iorque ou Bangadlesh. Ele é apaixonado pela namorada do melhor amigo, que só é apaixonada pela própria beleza, que tem uma mãe alcoolátra, que já foi namorada de um cara legal, que hoje é um velho triste, dono do único salão de sinuca, que é onde todos se encontram. Sonny também tem um caso com a mulher do treinador de futebol, que é um homossexual enrustido, cuja esposa insatisfeita se satisfaz pela primeira vez com a traição. Enfim, a cidade de Sonny poderia ser a cidade de qualquer um.
Vista pelos olhos do adolescente, Talia é o mundo inteiro, sábado à noite é o único momento que importa, a cerveja que ele está bebendo jamais vai terminar, o filme nunca terá um the end e o beijo da garota que está com ele vai continuar até que o universo se dissolva.
Talvez por isso, o livro dá a impressão de não acabar. Não há um final como um destino reservado para cada personagem. É como se a câmera fosse se afastando e depois da útlima página a gente simplesmente não conseguisse mais ver a cidadezinha nem o que está acontecendo com o Sonny.
Quando estamos num lugar que parece parado no tempo, a ilusão da eternidade toma ares de realidade. O texto de Larry McMurty faz a gente sentir esse gostinho novamente, o gosto daquela bala de hortelã que ficou perdido em algum filme da adolescência. Uma sessão de um cinema que a gente não lembra o nome porque ninguém nos avisou que seria a última.
Gisela Cesario
terça-feira, outubro 31, 2006
Sequestro em Copacabana – Oliver Dell’Anno
Sobre o quê: Uma família carioca acostumada com a vida no subúrbio muda-se pra zona sul. Na primeira noite, a filha de 16 anos não aparece em casa e todos começam a viver a possibilidade de um seqüestro.
Crítica: Estranho. Engraçado e estranho também. Podia resumir tudo que tenho pra dizer com esses dois adjetivos, mas serei um pouco mais prolixa. O que me levou a escolher um livro de suspense com personagens cariocas e autor americano? Só pode ter sido porque eu gosto de coisas estranhas. Ou melhor. Gosto de coisas diferentes. Não dá pra negar que a gente não espera que um americano escreva um livro onde o personagem principal é o delegado Biguá, não é? Claro, na orelha estava escrito que o autor viveu muitos anos no Brasil, etc e tal. Senti que minha curiosidade seria substituída pela decepção ( sempre espero que o diferente seja melhor) ao ler as primeiras páginas. Não sei se é o primeiro livro do autor, mas a gente nota que o texto nos pede licença antes de falar, pensei que podia ser por educação, costume de escrever em outra língua ou puro amadorismo mesmo. Amadorismo pode ser ruim ou bom, o amador faz por amor, mas aqui o amor do autor pelas palavras não teve um final muito feliz.
Esquecendo o fato de que alguns diálogos soam estranhos, a própria história tem falhas que começam no título do livro. O seqüestro não é em Copacabana, sim em Ipanema. Se algum revisor não reparou nisso, imagine se ia reparar em várias comidas de mosca do livro.
Há um personagem que mora na barra num capítulo e depois aparece morando no Grajaú sem nunca ter se mudado. Outro chama um colega de trabalho, do mesmo nível e mesma idade, de senhor. O patrão é mais pobre que os empregados. Ah, um festival de moscas.
Agora que já expliquei mais ou menos o estranho vou pro engraçado, que também não deixa de ser esquisito. Tudo isso não faz de “seqüestro em Copacabana” um livro ruim. Ri-se e muito com as falas do delegado biguá e as situações inverossímeis. O ritmo do texto é intenso, obriga a gente a segurar nos trancos e barrancos lingüísticos e seguir em frente. O final é legal. Isso aí. Legal.
Pena que o sinal parece que tocou antes do autor acabar a prova e ele foi obrigado a entregar assim mesmo. O delegado biguá, pelo menos, merecia uma segunda chance.
Gisela Cesario
Crítica: Estranho. Engraçado e estranho também. Podia resumir tudo que tenho pra dizer com esses dois adjetivos, mas serei um pouco mais prolixa. O que me levou a escolher um livro de suspense com personagens cariocas e autor americano? Só pode ter sido porque eu gosto de coisas estranhas. Ou melhor. Gosto de coisas diferentes. Não dá pra negar que a gente não espera que um americano escreva um livro onde o personagem principal é o delegado Biguá, não é? Claro, na orelha estava escrito que o autor viveu muitos anos no Brasil, etc e tal. Senti que minha curiosidade seria substituída pela decepção ( sempre espero que o diferente seja melhor) ao ler as primeiras páginas. Não sei se é o primeiro livro do autor, mas a gente nota que o texto nos pede licença antes de falar, pensei que podia ser por educação, costume de escrever em outra língua ou puro amadorismo mesmo. Amadorismo pode ser ruim ou bom, o amador faz por amor, mas aqui o amor do autor pelas palavras não teve um final muito feliz.
Esquecendo o fato de que alguns diálogos soam estranhos, a própria história tem falhas que começam no título do livro. O seqüestro não é em Copacabana, sim em Ipanema. Se algum revisor não reparou nisso, imagine se ia reparar em várias comidas de mosca do livro.
Há um personagem que mora na barra num capítulo e depois aparece morando no Grajaú sem nunca ter se mudado. Outro chama um colega de trabalho, do mesmo nível e mesma idade, de senhor. O patrão é mais pobre que os empregados. Ah, um festival de moscas.
Agora que já expliquei mais ou menos o estranho vou pro engraçado, que também não deixa de ser esquisito. Tudo isso não faz de “seqüestro em Copacabana” um livro ruim. Ri-se e muito com as falas do delegado biguá e as situações inverossímeis. O ritmo do texto é intenso, obriga a gente a segurar nos trancos e barrancos lingüísticos e seguir em frente. O final é legal. Isso aí. Legal.
Pena que o sinal parece que tocou antes do autor acabar a prova e ele foi obrigado a entregar assim mesmo. O delegado biguá, pelo menos, merecia uma segunda chance.
Gisela Cesario
sexta-feira, outubro 06, 2006
O homem que colecionava manhãs – Liberato Vieira da Cunha
Sobre o quê: Alberto é um funcionário público que ganha um extra escrevendo cartas para quem é analfabeto ou precisa de ajuda com as palavras. Descedente de família rica, mas vivendo humildemente numa pensão, ele tenta fazer as pazes com o passado que tanto o transformou. Escrever é também seu passatempo.
Crítica: Se eu fosse uma pessoa justa, ia usar esse espaço para agradecer e não somente para elogiar. Eu começaria assim:
Prezado Sr Liberato;
Obrigada por ter escrito “O Homem que colecionava manhãs.” Eu o encontrei na livraria que tem o critério de organização mais caótico do universo. Seu romance estava entre um livro de direito internacional e outro de culinária. Não pretendia comprar nada. Estava apenas divagando sobre o caos daquela livraria e da minha própria vida quando vi seu livro. Comprei porque gostei do resumo da orelha, das primeiras linhas e do fato de ter uma personagem chamda Gisa, meu apelido de infância.
Já pelas páginas iniciais percebi que seria um daqueles que leio com pena. Cada página é uma a menos, quando percebo que li muito me obrigo a parar, se quiser uma metafóra pra essa maluquice pode chamar sexo tântrico literário. Adia-se ao máximo o final, mas não para intensificar o prazer e sim para prorrogá-lo. Queria poder ficar lendo “ O homem que colecionava manhãs” pra sempre.
Amoral como um Rubem Fonseca, delicado como um Drummond, informal como um Marcelo Rubens Paiva, Alberto é um escritor fascinante. Escritor de cartas pros outros e para ele mesmo, seu hábito de relatar suas experiências e pensamentos a cada dia me recordou como era bom fazer isso, por que parei? Parei por quê? Não importa. Recomecei. Também por isso, agradeço, tanto ao Alberto quanto ao Liberato.
Sua obra tem o ritmo certo, calmo, mas longe de ser monotóno. Para me conquistar de vez, ainda teve crime, assassino, delegado, suspense .
Para os meus eventualíssimos leitores, acho que não precisa dizer se gostei.
Ah, obrigada Liberato, por misturar tudo que eu adoro num livro e ainda fazer dar tão incrivelmente certo.
Sei que não foi pra mim.
Mas não será tudo que é escrito sempre para alguém que não se conhece?
Mesmo que esse alguém seja uma parte de nós mesmos?
Um Alberto de Liberato, uma Gisa de Gisela.
Obrigada por esse lado seu, que também é meu e de todos nós. Que torna escrever mais hábito e menos vício.
Que nos torna todos menos responsáveis por nossas desgraças e mais personagens de um grande projeto de Deus.
Obrigada pela esperança de que esse projeto talvez dê certo.
Se não essa noite, talvez em uma das muitas manhãs que, todos nós, escritores/sonhadores, insistimos em colecionar.
Obrigada finalmente por me dar coragem para escrever essa crítica exatamente como ela devia ser: em forma de agradecimento.
Gisela Cesario
Crítica: Se eu fosse uma pessoa justa, ia usar esse espaço para agradecer e não somente para elogiar. Eu começaria assim:
Prezado Sr Liberato;
Obrigada por ter escrito “O Homem que colecionava manhãs.” Eu o encontrei na livraria que tem o critério de organização mais caótico do universo. Seu romance estava entre um livro de direito internacional e outro de culinária. Não pretendia comprar nada. Estava apenas divagando sobre o caos daquela livraria e da minha própria vida quando vi seu livro. Comprei porque gostei do resumo da orelha, das primeiras linhas e do fato de ter uma personagem chamda Gisa, meu apelido de infância.
Já pelas páginas iniciais percebi que seria um daqueles que leio com pena. Cada página é uma a menos, quando percebo que li muito me obrigo a parar, se quiser uma metafóra pra essa maluquice pode chamar sexo tântrico literário. Adia-se ao máximo o final, mas não para intensificar o prazer e sim para prorrogá-lo. Queria poder ficar lendo “ O homem que colecionava manhãs” pra sempre.
Amoral como um Rubem Fonseca, delicado como um Drummond, informal como um Marcelo Rubens Paiva, Alberto é um escritor fascinante. Escritor de cartas pros outros e para ele mesmo, seu hábito de relatar suas experiências e pensamentos a cada dia me recordou como era bom fazer isso, por que parei? Parei por quê? Não importa. Recomecei. Também por isso, agradeço, tanto ao Alberto quanto ao Liberato.
Sua obra tem o ritmo certo, calmo, mas longe de ser monotóno. Para me conquistar de vez, ainda teve crime, assassino, delegado, suspense .
Para os meus eventualíssimos leitores, acho que não precisa dizer se gostei.
Ah, obrigada Liberato, por misturar tudo que eu adoro num livro e ainda fazer dar tão incrivelmente certo.
Sei que não foi pra mim.
Mas não será tudo que é escrito sempre para alguém que não se conhece?
Mesmo que esse alguém seja uma parte de nós mesmos?
Um Alberto de Liberato, uma Gisa de Gisela.
Obrigada por esse lado seu, que também é meu e de todos nós. Que torna escrever mais hábito e menos vício.
Que nos torna todos menos responsáveis por nossas desgraças e mais personagens de um grande projeto de Deus.
Obrigada pela esperança de que esse projeto talvez dê certo.
Se não essa noite, talvez em uma das muitas manhãs que, todos nós, escritores/sonhadores, insistimos em colecionar.
Obrigada finalmente por me dar coragem para escrever essa crítica exatamente como ela devia ser: em forma de agradecimento.
Gisela Cesario
terça-feira, setembro 19, 2006
O homem dos círculos azuis - Fred Vargas
Sobre o quê: Uma série de objetos começa a aparecer dentro de círculos azuis nas calçadas de Paris. Junto com cada círculo, uma frase: “O bento, seu azarento, na rua com esse vento?”. Isso deixa de parecer brincadeira quando cadáveres passam a substituir os objetos dentro dos círculos. Desvendar esse mistério é o trabalho de um peculiar delegado e seu inspetor alcoólatra que serão ainda ajudados, ou atrapalhados, por uma oceonográfa metida a detetive e um cego mal-humorado.
Crítica: Como diria o cego personagem do livro, há muito não vejo com bons olhos essa coleção de mistério da Companhia das Letras. Pode-se dizer que é terrivelmente heterogênea, tem grandes porcarias e grandes mistérios. Ainda bem, esse se encaixa no segundo caso. E foi justamente o cego, mal humorado e engraçado, que me guiou pelo livro adentro.
Primeiro são apresentados ele e a oceanógrafa, num diálogo tão bem trabalhado que fica difícil não continuar lendo e se surpreender ao descobrir que eles não são as personagens principais. Não. Ainda falta conhecer o delegado Adamsberg, seu assistente Danglard e mais algumas pessoas. Surpresa novamente, eles são ainda mais fascinantes que as personagens iniciais. E a trama é digna de todos. Um mistério bem delineado, com o lápis azul do homem dos círculos e a incrível mente de Fred Vargas, autora que eu não conhecia.
Além de adorar suspense, tenho uma queda por metáforas. E pra esse romance, vai a do avião. Você ouve o aviso de apertar o cinto, sente a aeronave deslizar suavemente, fica esperando o baque, mas ele não vem, quando você percebe, está voando, olha pela janela e lá estão as nuvens abrindo caminho pra esse avião que você nem sentiu decolar. Aí você espera o momento de ficar entediada, de pensar no serviço de bordo, de folear aquela revista chata da poltrona, mas por algum motivo você não conseguiu ainda desgrudar da janela. As nuvens podem ser interessantes? Você não sabia que eram tantos formatos, nunca tinha reparado nos buracos que a luz do sol faz, e as cores, é desconcertante ver como as cores ficam difusas e bonitas. Mas o que? Você não acredita no que está ouvindo? Outro aviso de apertar os cintos? Já? Você não percebeu novamente, o avião pousou devargarzinho, as nuvens estão lá em cima, você desliza no chão. A viagem ficou pra trás e deixou aquela saudade imensa mesmo antes de ter terminado. O consolo pra essa saudade é o mesmo de sempre. A próxima viagem.
Um livro primoroso, como esse de Fred Vargas, merece ser pensado assim. Logo, logo, em outra prateleira, em outra livraria, talvez pela mesma Companhia de Letras, Fred Vargas vai me encontrar de novo com um cartão de embarque, porque a esperança é de que seu texto me leve não somente a outra viagem, mas a outro vôo absolutamente perfeito.
Gisela Cesario
Crítica: Como diria o cego personagem do livro, há muito não vejo com bons olhos essa coleção de mistério da Companhia das Letras. Pode-se dizer que é terrivelmente heterogênea, tem grandes porcarias e grandes mistérios. Ainda bem, esse se encaixa no segundo caso. E foi justamente o cego, mal humorado e engraçado, que me guiou pelo livro adentro.
Primeiro são apresentados ele e a oceanógrafa, num diálogo tão bem trabalhado que fica difícil não continuar lendo e se surpreender ao descobrir que eles não são as personagens principais. Não. Ainda falta conhecer o delegado Adamsberg, seu assistente Danglard e mais algumas pessoas. Surpresa novamente, eles são ainda mais fascinantes que as personagens iniciais. E a trama é digna de todos. Um mistério bem delineado, com o lápis azul do homem dos círculos e a incrível mente de Fred Vargas, autora que eu não conhecia.
Além de adorar suspense, tenho uma queda por metáforas. E pra esse romance, vai a do avião. Você ouve o aviso de apertar o cinto, sente a aeronave deslizar suavemente, fica esperando o baque, mas ele não vem, quando você percebe, está voando, olha pela janela e lá estão as nuvens abrindo caminho pra esse avião que você nem sentiu decolar. Aí você espera o momento de ficar entediada, de pensar no serviço de bordo, de folear aquela revista chata da poltrona, mas por algum motivo você não conseguiu ainda desgrudar da janela. As nuvens podem ser interessantes? Você não sabia que eram tantos formatos, nunca tinha reparado nos buracos que a luz do sol faz, e as cores, é desconcertante ver como as cores ficam difusas e bonitas. Mas o que? Você não acredita no que está ouvindo? Outro aviso de apertar os cintos? Já? Você não percebeu novamente, o avião pousou devargarzinho, as nuvens estão lá em cima, você desliza no chão. A viagem ficou pra trás e deixou aquela saudade imensa mesmo antes de ter terminado. O consolo pra essa saudade é o mesmo de sempre. A próxima viagem.
Um livro primoroso, como esse de Fred Vargas, merece ser pensado assim. Logo, logo, em outra prateleira, em outra livraria, talvez pela mesma Companhia de Letras, Fred Vargas vai me encontrar de novo com um cartão de embarque, porque a esperança é de que seu texto me leve não somente a outra viagem, mas a outro vôo absolutamente perfeito.
Gisela Cesario
quinta-feira, agosto 24, 2006
Amanhã numa boa - Faiza Guène
Sobre o quê – O diário de uma adolescente marroquina que vive com a mãe num bairro pobre de Paris. Os protestos políticos com o tema da imigração são apenas o cenário desse relato que fala do cotidiano da menina, com idas a escola, supermercado e festas.
Crítica – Quando eu era criança, achava o máximo alguém ter lido o diário de Anne Frank, mais máximo ainda era ser a Anne Frank, escrever um relato pessoal da Guerra e fazer com que a sua visão pessoal interessasse a alguém. Acho que existem duas explicações para isso: a primeira é que algumas pessoas ficam tão obcecadas com o assunto que querem saber mais do que o que está no noticiário e em todos os editorais do mundo. A segunda é que algumas pessoas não acreditam no noticiário e querem ouvir ou ler o depoimento de alguém que não está sendo pago pra falar.
Como não me encaixo em nenhum dos dois grupos, fiquei meio em dúvida se estava diante de outra anne frank e se valia a pena ler “amanhã, numa boa”. Fiz o meu teste de ler as primeiras páginas e Faiza passou com louvor. É um texto gostoso e leve. Se ela leva a gente a uma periferia na França, parece que estamos indo de bicicleta num dia de sol ameno e sentindo uma brisa fresca no rosto. Achei também que não faria mal a minha ignorância saber um pouco sobre a realidade desses imigrantes.
Posso garantir que a minha ignorância só melhorou um pouquinho, em compensação meu humor melhorou muito.
Eu tinha esquecido que o mundo de uma adolescente é tudo menos o mundo real. A gente vive a vida da TV, a vida do vizinho, do sonho, das músicas que tocam no rádio, tudo menos a realidade. Se alguém me perguntar o que eu fazia no plano collor, não terei nenhuma recordação profundamente política, provavelmente vou me lembrar que faltei à aula e fui ao shopping gastar o que sobrou da poupança do meu pai.
Foi mais ou menos isso que a adolescente do livro fez durante os fervorosos acontecimentos parisienses, não foi ao shopping, mas permaneceu do impenetrável e encantado universo no qual só os menores habitam. Só de vez em quando a realidade entra por aquele buraquinho entre o primeiro beijo e a novela. Quando isso acontece, a autora nos mostra um olhar puro, apolítico, de alguém tão imparcial que não toma partido nem de si mesma.
Não sei se isso se chama inocência, magia ou adolescência. Mas nesse caso, podemos chamar de ótima literatura. Ou, como diria a personagem, literatura numa boa.
Gisela Cesario
Crítica – Quando eu era criança, achava o máximo alguém ter lido o diário de Anne Frank, mais máximo ainda era ser a Anne Frank, escrever um relato pessoal da Guerra e fazer com que a sua visão pessoal interessasse a alguém. Acho que existem duas explicações para isso: a primeira é que algumas pessoas ficam tão obcecadas com o assunto que querem saber mais do que o que está no noticiário e em todos os editorais do mundo. A segunda é que algumas pessoas não acreditam no noticiário e querem ouvir ou ler o depoimento de alguém que não está sendo pago pra falar.
Como não me encaixo em nenhum dos dois grupos, fiquei meio em dúvida se estava diante de outra anne frank e se valia a pena ler “amanhã, numa boa”. Fiz o meu teste de ler as primeiras páginas e Faiza passou com louvor. É um texto gostoso e leve. Se ela leva a gente a uma periferia na França, parece que estamos indo de bicicleta num dia de sol ameno e sentindo uma brisa fresca no rosto. Achei também que não faria mal a minha ignorância saber um pouco sobre a realidade desses imigrantes.
Posso garantir que a minha ignorância só melhorou um pouquinho, em compensação meu humor melhorou muito.
Eu tinha esquecido que o mundo de uma adolescente é tudo menos o mundo real. A gente vive a vida da TV, a vida do vizinho, do sonho, das músicas que tocam no rádio, tudo menos a realidade. Se alguém me perguntar o que eu fazia no plano collor, não terei nenhuma recordação profundamente política, provavelmente vou me lembrar que faltei à aula e fui ao shopping gastar o que sobrou da poupança do meu pai.
Foi mais ou menos isso que a adolescente do livro fez durante os fervorosos acontecimentos parisienses, não foi ao shopping, mas permaneceu do impenetrável e encantado universo no qual só os menores habitam. Só de vez em quando a realidade entra por aquele buraquinho entre o primeiro beijo e a novela. Quando isso acontece, a autora nos mostra um olhar puro, apolítico, de alguém tão imparcial que não toma partido nem de si mesma.
Não sei se isso se chama inocência, magia ou adolescência. Mas nesse caso, podemos chamar de ótima literatura. Ou, como diria a personagem, literatura numa boa.
Gisela Cesario
quarta-feira, agosto 02, 2006
A morte é um número par - Alan Luxardo
Sobre o quê – Barone é um delegado gostosão que, entre um mergulho na piscina e outro, investiga um crime, entre uma namorada e outra, desvenda um mistério e, entre um filme de ação de outro, lê Agatha Christie.
Crítica: Uma vez escrevi um artigo sobre a incapacidade de os clientes acreditarem que um anúncio bonito vende, calma, não fiquei louca, vou chegar lá. Isso tem a ver com a incapacidade humana de acreditar que no que parece “bom demais pra ser verdade”. Um anúncio bonito e inteligente não pode ser vendedor. Assim como o gatão italiano delegado solteiro com um sorriso lindo na orelha do livro não pode ter escrito um bom suspense. Mas a vida, como eu vivo comprovando, não é equilibrada. As piores coisas desse mundo acontecem com quem já está na maior pindaíba. Enquanto isso, dinheiro chama dinheiro, rico ri à toa e Alan Luxardo não só é um escritor muito bom, mas também é muito, mas muito bom escritor.
Se eu fosse uma centopéia, teria começado a ler com 99 pés atrás, era o primeiro livro dele, era um policial escrito por um policial e o título era esquisito. O texto não é poético, como diriam coleguinhas críticos, não é uma prosa elaborada, às vezes é até meio cru, ouve-se o barulho do motor acelerando antes de o carro esquentar, mas depois que ele esquenta, dane-se a prosa, dane-se a poesia, o que a gente quer saber é quem foi o assassino.
E o que, nesse mundo desequilibrado de Meu Deus, pode ser melhor do que um livro de suspense que deixa a gente morrendo de curiosidade? Cheguei a pensar nisso várias vezes durante o dia, pensei dirigindo, pensei tomando banho, era como se fosse um problema de verdade. Desde Agatha Christie não ficava tão curiosa. ( Ah, claro que também sou fã.)
É um suspense conciso, perfeitamente amarrado e energicamente narrado. Como se fosse um filme de ação mas com o cuidado que os bons mistérios devem ter, fatos logicamente desencadeados, como uma equação matemática, você faz a prova dos nove e tudo bate.
Além disso, Barone, cuja descrição faz a gente pensar num cara ridículo pelo simples fato de ser brasileiro, está longe de ser ridículo. Barone poderia entrar num filme de 007 e deixar o Bond morrendo de inveja. Ele tem aquela mágica de conseguir ser tudo, inclusive verossímil. Acho que vai virar filme, mas eu espero mesmo é a próxima aventura do delegado Barone. Só não sei se esse Barone é páreo pra um outro delegado, um tal de Alan Luxardo.
Gisela Cesario
Crítica: Uma vez escrevi um artigo sobre a incapacidade de os clientes acreditarem que um anúncio bonito vende, calma, não fiquei louca, vou chegar lá. Isso tem a ver com a incapacidade humana de acreditar que no que parece “bom demais pra ser verdade”. Um anúncio bonito e inteligente não pode ser vendedor. Assim como o gatão italiano delegado solteiro com um sorriso lindo na orelha do livro não pode ter escrito um bom suspense. Mas a vida, como eu vivo comprovando, não é equilibrada. As piores coisas desse mundo acontecem com quem já está na maior pindaíba. Enquanto isso, dinheiro chama dinheiro, rico ri à toa e Alan Luxardo não só é um escritor muito bom, mas também é muito, mas muito bom escritor.
Se eu fosse uma centopéia, teria começado a ler com 99 pés atrás, era o primeiro livro dele, era um policial escrito por um policial e o título era esquisito. O texto não é poético, como diriam coleguinhas críticos, não é uma prosa elaborada, às vezes é até meio cru, ouve-se o barulho do motor acelerando antes de o carro esquentar, mas depois que ele esquenta, dane-se a prosa, dane-se a poesia, o que a gente quer saber é quem foi o assassino.
E o que, nesse mundo desequilibrado de Meu Deus, pode ser melhor do que um livro de suspense que deixa a gente morrendo de curiosidade? Cheguei a pensar nisso várias vezes durante o dia, pensei dirigindo, pensei tomando banho, era como se fosse um problema de verdade. Desde Agatha Christie não ficava tão curiosa. ( Ah, claro que também sou fã.)
É um suspense conciso, perfeitamente amarrado e energicamente narrado. Como se fosse um filme de ação mas com o cuidado que os bons mistérios devem ter, fatos logicamente desencadeados, como uma equação matemática, você faz a prova dos nove e tudo bate.
Além disso, Barone, cuja descrição faz a gente pensar num cara ridículo pelo simples fato de ser brasileiro, está longe de ser ridículo. Barone poderia entrar num filme de 007 e deixar o Bond morrendo de inveja. Ele tem aquela mágica de conseguir ser tudo, inclusive verossímil. Acho que vai virar filme, mas eu espero mesmo é a próxima aventura do delegado Barone. Só não sei se esse Barone é páreo pra um outro delegado, um tal de Alan Luxardo.
Gisela Cesario
quarta-feira, julho 26, 2006
Pergunte ao pó - Jonh Fante
Sobre o quê: Sonhando em ser escritor, Arturo Bandini, americano do Colorado e descendente de italianos, vive num hotel decadente de Los Angeles. Enquanto tenta escrever um conto que lhe garanta pagar o aluguel ou o grande livro que lhe tornará famoso, se apaixona por uma garconete mexicana e faz tudo que pode, inclusive escrever, para conquistá-la. ( O pó tem a ver com a poeira do deserto de los angeles, não é sobre cocaína).
Crítica: Bukosvky já escreveu sobre esse livro. Artur Dapieve já escreveu sobre esse livro. Tenho certeza que milhares de outras pessoas importantes também. Agora chegou a minha humilde vez. Como não tenho leitores, posso dizer o que quiser e não me sinto nem um pouco na obrigação de concordar com gente inteligente e conhecida. Até torci secretamente pra achar o livro uma porcaria e acabar com essa ditadura de Jonh Fante. Mas vou ter que repetir aqui as mesmas coisas que já li em todas as críticas como uma simples maria vai com as outras.
Talvez a única grande diferença é que todos os outros críticos se apaixonaram pela garconete mexicana e eu me apaixonei mesmo pelo Arturo Bandini. Como não se apaixonar? Como não ter vontade de ser garçonete e mexicana?
De início, o personagem de Jonh Fante faz com que todos os escritores se identifiquem com ele, quem já é famoso e quem já pensou em ser (isso, claro, inclui todos). Depois, faz com que todos que já sonharam desperamente conseguir alguma coisa se identifiquem com ele. Finalmente faz com que todos que se apaixonaram por alguém, só de olhar pra essa pessoa, se identifiquem com ele. Portanto, se você não se identificar com ele não significa que você não é parecido com o Bukovisky, significa que não é desse planeta. E só pra dar a impressão que ele está falando diretamente com quem nasceu aqui ou outro lugar diferente de Los Angeles, ele ainda faz com que todos que já imaginaram uma vida em holywood se idenfiquem com ele. Desde nós, rélis tupiniquins, até os caipiras dos EUA.
Claro, ainda tem a história de amor dele com a mexicana. Uma história que, como a maioria das histórias de amor, acontece mais na cabeça de quem ama do que na realidade mesmo.
Ler John Fante é passar um tempo nessa cabeça que ama sem retorno, que quer ser escritor, que gasta todo dinheiro que ganha e se imagina muito famoso e passa situações de fazer rir e chorar ao mesmo tempo.
Um mundo fascinante, no qual todos nós vivemos todos os dias, mas parece que só descobrimos depois de ler “Pergunte ao pó”.
Gisela Cesario
Crítica: Bukosvky já escreveu sobre esse livro. Artur Dapieve já escreveu sobre esse livro. Tenho certeza que milhares de outras pessoas importantes também. Agora chegou a minha humilde vez. Como não tenho leitores, posso dizer o que quiser e não me sinto nem um pouco na obrigação de concordar com gente inteligente e conhecida. Até torci secretamente pra achar o livro uma porcaria e acabar com essa ditadura de Jonh Fante. Mas vou ter que repetir aqui as mesmas coisas que já li em todas as críticas como uma simples maria vai com as outras.
Talvez a única grande diferença é que todos os outros críticos se apaixonaram pela garconete mexicana e eu me apaixonei mesmo pelo Arturo Bandini. Como não se apaixonar? Como não ter vontade de ser garçonete e mexicana?
De início, o personagem de Jonh Fante faz com que todos os escritores se identifiquem com ele, quem já é famoso e quem já pensou em ser (isso, claro, inclui todos). Depois, faz com que todos que já sonharam desperamente conseguir alguma coisa se identifiquem com ele. Finalmente faz com que todos que se apaixonaram por alguém, só de olhar pra essa pessoa, se identifiquem com ele. Portanto, se você não se identificar com ele não significa que você não é parecido com o Bukovisky, significa que não é desse planeta. E só pra dar a impressão que ele está falando diretamente com quem nasceu aqui ou outro lugar diferente de Los Angeles, ele ainda faz com que todos que já imaginaram uma vida em holywood se idenfiquem com ele. Desde nós, rélis tupiniquins, até os caipiras dos EUA.
Claro, ainda tem a história de amor dele com a mexicana. Uma história que, como a maioria das histórias de amor, acontece mais na cabeça de quem ama do que na realidade mesmo.
Ler John Fante é passar um tempo nessa cabeça que ama sem retorno, que quer ser escritor, que gasta todo dinheiro que ganha e se imagina muito famoso e passa situações de fazer rir e chorar ao mesmo tempo.
Um mundo fascinante, no qual todos nós vivemos todos os dias, mas parece que só descobrimos depois de ler “Pergunte ao pó”.
Gisela Cesario
terça-feira, junho 27, 2006
Mémorias de Minhas Putas Tristes – Gabriel Garcia Marques
Sobre o quê: Um dia antes de completar 90 anos, um jornalista solteirão decide que seu presente de aniversário deverá ser uma virgem e, para isso, recorre a uma velha amiga cafetina. E o que parecia ser o final de uma vida se torna o início de um grande amor.
Crítica: Como diria Odorico Paraguaçu, é com a alma lavada e enxaguada que confesso: nunca havia lido Gabriel Garcia Marques. E, no entanto, suas palavras me soaram como se estivesse conversando com um velho amigo. E não um amigo qualquer, um amigo estilo Rubem Fonseca. Não é à toa que dizem que os livros são os melhores amigos. Pois esse me mostrou uns pedacinhos da Colômbia, falou de uns lugares que só vejo nos anúncios de roteiros turísticos.Como sempre, a gente fica impressionada como o Brasil se parece com outros países do terceiro mundo, acho que os Brasileiros imaginam que seu país é único. Mas, deixando de lado os entrementes e indo direto aos finalmentes para continuar no estilo do Odorico, o livro é uma linda história de amor. Um romance disfarçado de pseudo-biografia. Usando o flashback, o velho personagem fala de sua loucura ao completar 90 anos, querer uma virgem. As coisas não acontecem como deveriam ( ou nesse caso, acontecem exatamente como deveriam) e a relação não se consuma, os dois somente dormem juntos. E aí sim vem o inesperado: o primeiro amor de um senhor de 90 anos. Uma paixão que se resume em dormir ao lado da amada, ele não quer ouvir sua voz, não quer saber sobre a vida dela, seu fetiche é ouvir a respiração da menina, vê-la ressonar, imagina-la um anjo talvez. Não são todos os que amam meio loucos? Não preferem sempre a ilusão à realidade? Ao contar a história desse primeiro amor, ele relembra todos os seus casos, as mulheres que sempre teve e nunca amou, comparando com aquela que nunca teve e ama desesperadamente. As outras, as putas, são tristes. A virgem é a que traz felicidade, angústia, ciúme e todos os sentimentos misturados que o sentimento do amor provoca. E o autor vai contando tudo isso tão rápido que a gente nem vê as páginas passando e com uma prosa tão bonita que parece até poesia. Não vou contar o fim do livro. Só posso dizer uma coisa sobre o fim: ele chega muito rápido. Não vejo a hora de me reencontrar com esse novo amigo, Gabriel Garcia Marques, em outro livro. Com certeza, tive imenso prazer em lhe conhecer.
Gisela Cesario
Crítica: Como diria Odorico Paraguaçu, é com a alma lavada e enxaguada que confesso: nunca havia lido Gabriel Garcia Marques. E, no entanto, suas palavras me soaram como se estivesse conversando com um velho amigo. E não um amigo qualquer, um amigo estilo Rubem Fonseca. Não é à toa que dizem que os livros são os melhores amigos. Pois esse me mostrou uns pedacinhos da Colômbia, falou de uns lugares que só vejo nos anúncios de roteiros turísticos.Como sempre, a gente fica impressionada como o Brasil se parece com outros países do terceiro mundo, acho que os Brasileiros imaginam que seu país é único. Mas, deixando de lado os entrementes e indo direto aos finalmentes para continuar no estilo do Odorico, o livro é uma linda história de amor. Um romance disfarçado de pseudo-biografia. Usando o flashback, o velho personagem fala de sua loucura ao completar 90 anos, querer uma virgem. As coisas não acontecem como deveriam ( ou nesse caso, acontecem exatamente como deveriam) e a relação não se consuma, os dois somente dormem juntos. E aí sim vem o inesperado: o primeiro amor de um senhor de 90 anos. Uma paixão que se resume em dormir ao lado da amada, ele não quer ouvir sua voz, não quer saber sobre a vida dela, seu fetiche é ouvir a respiração da menina, vê-la ressonar, imagina-la um anjo talvez. Não são todos os que amam meio loucos? Não preferem sempre a ilusão à realidade? Ao contar a história desse primeiro amor, ele relembra todos os seus casos, as mulheres que sempre teve e nunca amou, comparando com aquela que nunca teve e ama desesperadamente. As outras, as putas, são tristes. A virgem é a que traz felicidade, angústia, ciúme e todos os sentimentos misturados que o sentimento do amor provoca. E o autor vai contando tudo isso tão rápido que a gente nem vê as páginas passando e com uma prosa tão bonita que parece até poesia. Não vou contar o fim do livro. Só posso dizer uma coisa sobre o fim: ele chega muito rápido. Não vejo a hora de me reencontrar com esse novo amigo, Gabriel Garcia Marques, em outro livro. Com certeza, tive imenso prazer em lhe conhecer.
Gisela Cesario
sexta-feira, junho 02, 2006
O intocável - Jonh Banville
Sobre o quê: Victor Maskell era um homem respeitado na Inglaterra, tinha até um título de cavaleiro das artes, concedido pela rainha. Ele perde tudo isso quando sua identidade de espião é revelada. Durante mais de 20 anos, Victor levou uma vida dupla, de agente russo e homossexual. Publicamente humilhado, ele resolve nos contar suas memórias.
Crítica: Empatia não se dá só entre pessoas. Cada vez acredito mais que exista essa força, essa troca de energias também entre pessoas e objetos, mais especificamente os livros. Isso deve explicar porque o meu fascínio inicial por esse livro, O intocável. Porém, cada vez que constatava sobre o quê era a história, desistia de ler. Imaginei que fosse um relato político, chatíssimo. Finalmente, decidi que ia tentar de qualquer jeito. E mais uma vez vi que nossa intuição sabe muito mais do que a razão.
A vida de Victor Maskell tem muitos ingredientes para ser fascinante. Um irlandês extremamente sensível e inteligente consegue ocupar altos cargos em meios fechados da Inglaterra, trabalhando com arte, com história da arte e, claro, com espiões russos. Esse irlandês também gosta de homens, não de um modo caricático ou politicamente correto ( acho que andaram inventando um modo politicamente correto de ser homossexual, já repararam?), mas ele gosta de um modo natural, como você gosta do quer que você goste. Ele tem relações promíscuas, tira vidas inocentes ou não com atos de espionagem, faz enfim, muitas coisas condenáveis, mas é impossível não se apaixonar por esse irlandês, inglês, russo, que tem tantas faces que parece até brasileiro.
Não sei se é o momento de usar a palavra amoral, a realidade, vista sem filtros cor de rosa também parece bem amoral. Guerra e miséria não são menos indecentes que muitos atos comumente condenados.
Mas, apesar de jogar nas duas (com trocadilho, por favor, o livro é muito bem humorado), nosso personagem demonstra uma incrível linearidade de caráter. É, ao mesmo tempo, um marxista e um monarquista, um real cavaleiro inglês e um leviano espião russo, um marido atormentado e um promíscuo inveterado.E tudo isso sem deixar de ser sempre o mesmo: apaixonado, emotivo, introspectivo, sábio, fiel àquilo que vale a pena ser fiel, segundo ele mesmo.
A guerra, quase ia esquecendo, a segunda guerra está lá, tudo se passa em tempos de guerra, não há maior contradição que matar pela paz. Só que esse não é um livro sobre guerra, nem sobre contradições, porque tudo isso é muito natural. Esse seja talvez um livro sobre filosofia, sobre o estoicismo, que, conforme eu aprendi com o autor, é o seguinte: uma corrente que acredita que o mundo nunca progride, porque o equilíbrio entre o bem e o mal permanece constante e os fatos podem diferir um pouco, mas sempre se repetem. Quem esperaria aprender isso num livro de espionagem?
Assim, John Banville desequilibra um pouco esse mundo estóico, surpreende com um texto macio, leve, capaz de nos fazer flanar sobre as matanças de uma bomba. E, na balança final, com mais peso que todas as atitudes politicamente corretas, está a arte do personagem, o amor pela pintura. Com mais peso que todos os assuntos do livro, está a arte do autor, essa habilidade e essa paixão na hora de ordenar as palavras, aquilo que nos confirma amantes da boa literatura.
Gisela Cesario
Crítica: Empatia não se dá só entre pessoas. Cada vez acredito mais que exista essa força, essa troca de energias também entre pessoas e objetos, mais especificamente os livros. Isso deve explicar porque o meu fascínio inicial por esse livro, O intocável. Porém, cada vez que constatava sobre o quê era a história, desistia de ler. Imaginei que fosse um relato político, chatíssimo. Finalmente, decidi que ia tentar de qualquer jeito. E mais uma vez vi que nossa intuição sabe muito mais do que a razão.
A vida de Victor Maskell tem muitos ingredientes para ser fascinante. Um irlandês extremamente sensível e inteligente consegue ocupar altos cargos em meios fechados da Inglaterra, trabalhando com arte, com história da arte e, claro, com espiões russos. Esse irlandês também gosta de homens, não de um modo caricático ou politicamente correto ( acho que andaram inventando um modo politicamente correto de ser homossexual, já repararam?), mas ele gosta de um modo natural, como você gosta do quer que você goste. Ele tem relações promíscuas, tira vidas inocentes ou não com atos de espionagem, faz enfim, muitas coisas condenáveis, mas é impossível não se apaixonar por esse irlandês, inglês, russo, que tem tantas faces que parece até brasileiro.
Não sei se é o momento de usar a palavra amoral, a realidade, vista sem filtros cor de rosa também parece bem amoral. Guerra e miséria não são menos indecentes que muitos atos comumente condenados.
Mas, apesar de jogar nas duas (com trocadilho, por favor, o livro é muito bem humorado), nosso personagem demonstra uma incrível linearidade de caráter. É, ao mesmo tempo, um marxista e um monarquista, um real cavaleiro inglês e um leviano espião russo, um marido atormentado e um promíscuo inveterado.E tudo isso sem deixar de ser sempre o mesmo: apaixonado, emotivo, introspectivo, sábio, fiel àquilo que vale a pena ser fiel, segundo ele mesmo.
A guerra, quase ia esquecendo, a segunda guerra está lá, tudo se passa em tempos de guerra, não há maior contradição que matar pela paz. Só que esse não é um livro sobre guerra, nem sobre contradições, porque tudo isso é muito natural. Esse seja talvez um livro sobre filosofia, sobre o estoicismo, que, conforme eu aprendi com o autor, é o seguinte: uma corrente que acredita que o mundo nunca progride, porque o equilíbrio entre o bem e o mal permanece constante e os fatos podem diferir um pouco, mas sempre se repetem. Quem esperaria aprender isso num livro de espionagem?
Assim, John Banville desequilibra um pouco esse mundo estóico, surpreende com um texto macio, leve, capaz de nos fazer flanar sobre as matanças de uma bomba. E, na balança final, com mais peso que todas as atitudes politicamente corretas, está a arte do personagem, o amor pela pintura. Com mais peso que todos os assuntos do livro, está a arte do autor, essa habilidade e essa paixão na hora de ordenar as palavras, aquilo que nos confirma amantes da boa literatura.
Gisela Cesario
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