O vendedor de Passados – Imagino o porquê existem tantas resenhas a respeito desse livro enquanto estou aqui, escrevendo mais meia, porque esse parágrafo não pode ser chamado resenha inteira. Pontos a destacar: linguagem poética, português angolano, narrador animal. Ë isso mesmo, o livro é narrado por uma lagartixa, ou osga, como deve se dizer por lá. Gostaria tanto de um glossário de português de lá pra português de cá, mas tudo bem. A obra é um delírio, com cores vivas, bonitas, passado num canto do mundo que parece até a Bahia de Jorge Amado, um lugar onde o tempo passa diferente, as osgas falam, os sonhos se confundem com a realidade e mentira contada diversas vezes acaba por se tornar verdade.
O mistério das cabeças degoladas- Frei Beto – Tente encaixar um quadrado perfeito num buraco perfeitamente redondo e você verá que nenhum dos dois tem nada de errado, eles simplesmente não se encaixam. Também não há nada de errado com a narrativa de Frei Betto, a história é verossímil, interessante, o texto tem a mistura de erudição e lirismo nas devidas doses . Porém a minha expectativa (só posso falar por mim) era redonda e o livro termina em quadrado. Tento explicar melhor: o nome frei Beto e a palavra suspense na mesma orelha de livro despertam uma esperança que não se satisfaz com o mistério das cabeças degoladas, falta algo ou talvez sobre. O autor nos sugere desvios para o mistério, como o assunto das crianças de rua ou uma possível história de amor, mas esses desvios são ruas sem saída, só nos resta voltar pro mistério depois de dar com a cara no muro. Acontece que, quando voltamos, estamos menos tensos e curiosos do que deveríamos, pois o autor mesmo nos distraiu. Um suspense deve ser inteiro pra ser perfeito, e inteiro é aquele em que tudo que se menciona na história se relaciona com o que se está desvendando. Não acho que isso seja fácil de fazer e se eu mesma soubesse como se faz não estaria aqui escrevendo essa mini-resenha. Porém era isso que eu esperava: perfeição. O mistério das cabeças degoladas é apenas humano, não é divino como seu autor.
Gisela Cesario
Este é um blog de crítica literária. O objetivo é puramente entretenimento. Todas as críticas refletem apenas a opinião e o gosto pessoal da autora do blog. Não há, em momento algum, pretensão de julgar a obra exposta. Se qualquer autor(a) se sentir ofendido por essas palavras, pedimos desculpas por nosso erro, pois certamente não escrevemos com esse intuito. PS - Eventualmente, você também poderá encontrar aqui resenhas de filmes
segunda-feira, novembro 01, 2010
sábado, outubro 09, 2010
O palácio de Inverno – Jonh Boyne
Sobre o quê: Georgui, hoje com 82 anos, se lembra bem como as guerras e as mudanças na Europa transformam sua vida sem serem capazes de abalar seus sentimentos.
Crítica: Quem vive num palácio de inverno tem pelo menos três certezas. Um dia ele não será mais palácio. Noutro não será mais seu. E, por fim, acabará o inverno.
Escrevi essa declaração enigmática quando terminei de ler o Palácio de Inverno de Jonh Boyne. Sinceramente, minha memória não me permite lembrar se escrevi a resenha de o menino do pijama listrado. Bom, pode-se dizer que ele começou absurdamente bem e não saiu do ritmo.
Mais: ele melhorou.
Ouso dizer que o Palácio de inverno é ainda melhor do que o menino do pijama listrado, simplesmente pelo fato de nos proporcionar mais momentos, de ser mais longo e complexo, demorar mais a terminar.
Normalmente, a complexidade não é algo que me atrai num livro. Prefiro histórias simples e lineares, menos prováveis de se cometerem erros. Porém, nem os nomes russos me afastaram dessa obra de John Boyne. Eu sabia que alguém que foi capaz de transformar o nazismo numa história de amizade não iria falhar diante um monte de nomes cheios de consoantes.
O Palácio de Inverno também fala das guerras e também fala da mesma maneira comovente, com os olhos, os ouvidos e principalmente a boca dos que vivem e não simplesmente emitem uma opinião.
Novamente, John Boyne nos mostra o lado real, onde não há o certo e o errado, os mocinhos e os bandidos, mas simplesmente seres humanos tentando tirar o melhor da posição que o destino lhes concedeu.
A sensibilidade do autor chega a parecer auto-biográfica. Se, no menino do pijama listrado, a historia era de amizade, aqui ela é de amor. Uma história mais forte que a guerra porque trata de um amor mais forte que todos os motivos da guerra.
O menino Georgui começa como um senhor de 82 anos e, sem querer estragar o livro para os que não leram, posso adiantar, ele conta somente uma história, a sua com a sua amada.
Dizer mais iria tirar um dos grandes prazeres de ler Jonh Boyne, saber que o amor é tão inevitável e tão inerente ao ser humano quanto a mais cruel das guerras. A diferença é que as guerras são como o inverno enquanto o amor, pelo menos segundo o autor, pode ser eterno.(rimou sem querer, juro.)
Gisela Cesario
Crítica: Quem vive num palácio de inverno tem pelo menos três certezas. Um dia ele não será mais palácio. Noutro não será mais seu. E, por fim, acabará o inverno.
Escrevi essa declaração enigmática quando terminei de ler o Palácio de Inverno de Jonh Boyne. Sinceramente, minha memória não me permite lembrar se escrevi a resenha de o menino do pijama listrado. Bom, pode-se dizer que ele começou absurdamente bem e não saiu do ritmo.
Mais: ele melhorou.
Ouso dizer que o Palácio de inverno é ainda melhor do que o menino do pijama listrado, simplesmente pelo fato de nos proporcionar mais momentos, de ser mais longo e complexo, demorar mais a terminar.
Normalmente, a complexidade não é algo que me atrai num livro. Prefiro histórias simples e lineares, menos prováveis de se cometerem erros. Porém, nem os nomes russos me afastaram dessa obra de John Boyne. Eu sabia que alguém que foi capaz de transformar o nazismo numa história de amizade não iria falhar diante um monte de nomes cheios de consoantes.
O Palácio de Inverno também fala das guerras e também fala da mesma maneira comovente, com os olhos, os ouvidos e principalmente a boca dos que vivem e não simplesmente emitem uma opinião.
Novamente, John Boyne nos mostra o lado real, onde não há o certo e o errado, os mocinhos e os bandidos, mas simplesmente seres humanos tentando tirar o melhor da posição que o destino lhes concedeu.
A sensibilidade do autor chega a parecer auto-biográfica. Se, no menino do pijama listrado, a historia era de amizade, aqui ela é de amor. Uma história mais forte que a guerra porque trata de um amor mais forte que todos os motivos da guerra.
O menino Georgui começa como um senhor de 82 anos e, sem querer estragar o livro para os que não leram, posso adiantar, ele conta somente uma história, a sua com a sua amada.
Dizer mais iria tirar um dos grandes prazeres de ler Jonh Boyne, saber que o amor é tão inevitável e tão inerente ao ser humano quanto a mais cruel das guerras. A diferença é que as guerras são como o inverno enquanto o amor, pelo menos segundo o autor, pode ser eterno.(rimou sem querer, juro.)
Gisela Cesario
domingo, agosto 29, 2010
Livros de Julho: O Guerreiro Solitário, Atestado de Óbito e outro que eu não lembro o nome por motivos óbvios.
Aviso: Aos meus menos de 17 leitores, aviso sobre a mudança de formato nas resenhas que publico. Agora, em vez de falar sobre o último livro que li, farei um resumo do mês. Claro que, se algum exemplar valer uma resenha só pra ele, escreverei com prazer. Fora isso, pretendo apenas tecer breves comentários sobre cada obra, ficando calada também quando for o caso. É isso.
Julho: Em algumas épocas de nossas vidas, o suspense faz mais sentido que tudo. Pode-se dizer que eu estou em uma dessas épocas. Meu objetivo com as aquisições que fiz foi não pensar nos meus próprios problemas. Para isso, seria preciso que alguém me apresentasse problemas bem mais interessantes e, claro, com uma solução possível. Vamos ver como cada um se saiu.
Atestado de Óbito: Jenny, a atormentada personagem principal desse romance, proporciona excelentes momentos nos quais é possível se entregar totalmente ao texto, principalmente para quem se identifica com problemas psicológicos convivendo com problemas de trabalho e problemas de família. Porém, e infelizmente há um porém, nosso exemplar fica na média da maioria dos suspenses, com soluções pouco críveis, beirando o fantástico. Não que isso não seja normal. É. Por isso, o romance bate as asas, mas não decola.
O Guerreiro Solitário: Não sei por que, ou melhor, sei mas vou fingir que não, esse autor está sendo tão aclamado juntamente com seu nada extraordinário detetive. Wallander, o tal detetive, não tem nada demais e ainda promete o que não cumpre, coisa também não rara em suspenses médios, como esse. Deve ser muito difícil construir um tipo com personalidade como Poirot. O problema com Wallander é o que não acontece, o que ele sugere, como o relacionamento com uma mulher chamada Baiba, a qual não tem uma linha de fala no livro. Por que nos fazer esperar algo quando nada virá? Em termos de história, novamente temos uma solução mágica para algo que parecia, durante algumas páginas, bem real. Leia, se quiser se divertir, mas não espere se apaixonar.
Gisela Cesario
Julho: Em algumas épocas de nossas vidas, o suspense faz mais sentido que tudo. Pode-se dizer que eu estou em uma dessas épocas. Meu objetivo com as aquisições que fiz foi não pensar nos meus próprios problemas. Para isso, seria preciso que alguém me apresentasse problemas bem mais interessantes e, claro, com uma solução possível. Vamos ver como cada um se saiu.
Atestado de Óbito: Jenny, a atormentada personagem principal desse romance, proporciona excelentes momentos nos quais é possível se entregar totalmente ao texto, principalmente para quem se identifica com problemas psicológicos convivendo com problemas de trabalho e problemas de família. Porém, e infelizmente há um porém, nosso exemplar fica na média da maioria dos suspenses, com soluções pouco críveis, beirando o fantástico. Não que isso não seja normal. É. Por isso, o romance bate as asas, mas não decola.
O Guerreiro Solitário: Não sei por que, ou melhor, sei mas vou fingir que não, esse autor está sendo tão aclamado juntamente com seu nada extraordinário detetive. Wallander, o tal detetive, não tem nada demais e ainda promete o que não cumpre, coisa também não rara em suspenses médios, como esse. Deve ser muito difícil construir um tipo com personalidade como Poirot. O problema com Wallander é o que não acontece, o que ele sugere, como o relacionamento com uma mulher chamada Baiba, a qual não tem uma linha de fala no livro. Por que nos fazer esperar algo quando nada virá? Em termos de história, novamente temos uma solução mágica para algo que parecia, durante algumas páginas, bem real. Leia, se quiser se divertir, mas não espere se apaixonar.
Gisela Cesario
quinta-feira, maio 20, 2010
Tudo pode dar certo – Woody Allen
Sobre o quê: Um velho inteligente e mal humorado conhece uma garota burra e bem humorada. Será que eles podem viver uma história de amor?
Crítica: Tudo pode dar certo?
Quando um filme começa com uma tradução tão propositalmente errada quanto essa, poucas são as chances de ele dar certo. O filme do Woody Allen se chama o que quer que dê certo ou qualquer coisa que dê certo ou ainda seja lá o que der certo e muitas outras opções de tradução, mas não, ele não se chama tudo pode dar certo.
Dito isso, vamos à crítica, se é que isso é necessário depois dessa introdução. Tudo pode dar certo tem tudo pra dar certo, afinal foi Woody Allen quem escreveu e dirigiu, fora isso, é passado em nova Iorque, tem uma atriz loura e bonita, tem diálogos engraçados. Será que Woody Allen é só isso? Foi o que fiquei pensando ontem depois de assistir ‘whaterver works”.
Talvez o fato que vou contar agora tenha me influenciado. Essa história não é nova.( E qual é???), Bom, ela estava no fundo da gaveta do autor há muitos e muitos anos quando ele resolveu desenterra-la e leva-la para o cinema. Não sei se foi isso que me fez ver o filme como se fosse um rascunho ruim de “noivo neurótico e noiva nervosa”. O que posso dizer do fundo do meu coração é: aquela coisa não é Woody Allen. É alguém que ele foi antes de ser ele ou alguém que ele é hoje em dia, depois de ser ele, entendem? Sei que é complicado, mas se tornar um diretor de sucesso numa Hollywood de cenas de ação, carros amassados e 007s não deve ter sido fácil. Por isso, os primeiros filmes dele são tão extraordinariamente bons, eles tinham que ser, ou não seriam nem filmados. Ser Woody Allen hoje, quase 40 anos depois, é bem diferente. Hoje ele é aquele cara que faz você rir antes de contar a piada.
Pra se ter uma idéia do que eu digo, das 5 pessoas que estavam antes de mim na fila, zero sabiam o nome do filme, só disseram que queriam ver o filme do Woody Allen, tanto que quando eu falei ingenuamente “tudo pode dar certo” pra bilheteira ela ficou me olhando e teve de racionar até ligar o nome à pessoa.
Foi exatamente isso que fez esse roteiro sair da gaveta. Hoje em dia, pouco importa, é dele, será visto, vende. As piadas não são ruins, mas algumas são vergonhosamente velhas. No entanto, a esperança woodyallenana nos faz acreditar que haverá um final ou algo que transforme aquele monte de diálogos e cenas engraçadinhas num filme do nosso diretor. É quando chega a hora de lembrar da frase inicial do filme, como um oráculo, ele prevê: você não vai se sentir melhor depois desse filme. Sabe por quê? Porque esse não é um filme digno dele. Todo mundo se sente melhor depois de um bom filme, não importa se é uma comédia hilariante ou um dramalhão, filme bom é aquele que faz você se sentir melhor, mesmo que isso lhe provoque lágrimas.
Depois de um filme bom, você sente que aquelas duas horas que passou no cinema foram extremamente importantes e, sem elas, você não seria o que é hoje, porque um filme bom te torna uma pessoa melhor.
Esse é ponto, é por isso que ele diz que você não vai se sentir melhor. E talvez essa seja a melhor parte do filme, pelo menos é a única que tem realmente a genialidade do Woody Allen. O resto é infantil, é pré ou pós algo que mereceu nossos aplausos. Normalmente, a velhice chega ridícula, mas pelo menos é mais sábia. Uma velhice com a inexperiência de um adolescente é, no mínimo, um vexame. Tristemente, essa é a minha definição para whatever works. Nothings worked.
Gisela Cesario
Crítica: Tudo pode dar certo?
Quando um filme começa com uma tradução tão propositalmente errada quanto essa, poucas são as chances de ele dar certo. O filme do Woody Allen se chama o que quer que dê certo ou qualquer coisa que dê certo ou ainda seja lá o que der certo e muitas outras opções de tradução, mas não, ele não se chama tudo pode dar certo.
Dito isso, vamos à crítica, se é que isso é necessário depois dessa introdução. Tudo pode dar certo tem tudo pra dar certo, afinal foi Woody Allen quem escreveu e dirigiu, fora isso, é passado em nova Iorque, tem uma atriz loura e bonita, tem diálogos engraçados. Será que Woody Allen é só isso? Foi o que fiquei pensando ontem depois de assistir ‘whaterver works”.
Talvez o fato que vou contar agora tenha me influenciado. Essa história não é nova.( E qual é???), Bom, ela estava no fundo da gaveta do autor há muitos e muitos anos quando ele resolveu desenterra-la e leva-la para o cinema. Não sei se foi isso que me fez ver o filme como se fosse um rascunho ruim de “noivo neurótico e noiva nervosa”. O que posso dizer do fundo do meu coração é: aquela coisa não é Woody Allen. É alguém que ele foi antes de ser ele ou alguém que ele é hoje em dia, depois de ser ele, entendem? Sei que é complicado, mas se tornar um diretor de sucesso numa Hollywood de cenas de ação, carros amassados e 007s não deve ter sido fácil. Por isso, os primeiros filmes dele são tão extraordinariamente bons, eles tinham que ser, ou não seriam nem filmados. Ser Woody Allen hoje, quase 40 anos depois, é bem diferente. Hoje ele é aquele cara que faz você rir antes de contar a piada.
Pra se ter uma idéia do que eu digo, das 5 pessoas que estavam antes de mim na fila, zero sabiam o nome do filme, só disseram que queriam ver o filme do Woody Allen, tanto que quando eu falei ingenuamente “tudo pode dar certo” pra bilheteira ela ficou me olhando e teve de racionar até ligar o nome à pessoa.
Foi exatamente isso que fez esse roteiro sair da gaveta. Hoje em dia, pouco importa, é dele, será visto, vende. As piadas não são ruins, mas algumas são vergonhosamente velhas. No entanto, a esperança woodyallenana nos faz acreditar que haverá um final ou algo que transforme aquele monte de diálogos e cenas engraçadinhas num filme do nosso diretor. É quando chega a hora de lembrar da frase inicial do filme, como um oráculo, ele prevê: você não vai se sentir melhor depois desse filme. Sabe por quê? Porque esse não é um filme digno dele. Todo mundo se sente melhor depois de um bom filme, não importa se é uma comédia hilariante ou um dramalhão, filme bom é aquele que faz você se sentir melhor, mesmo que isso lhe provoque lágrimas.
Depois de um filme bom, você sente que aquelas duas horas que passou no cinema foram extremamente importantes e, sem elas, você não seria o que é hoje, porque um filme bom te torna uma pessoa melhor.
Esse é ponto, é por isso que ele diz que você não vai se sentir melhor. E talvez essa seja a melhor parte do filme, pelo menos é a única que tem realmente a genialidade do Woody Allen. O resto é infantil, é pré ou pós algo que mereceu nossos aplausos. Normalmente, a velhice chega ridícula, mas pelo menos é mais sábia. Uma velhice com a inexperiência de um adolescente é, no mínimo, um vexame. Tristemente, essa é a minha definição para whatever works. Nothings worked.
Gisela Cesario
sexta-feira, abril 09, 2010
O Olhar cingindo – Flavio Braga
Sobre o que: Um apresentador de um programa de tv sensacionalista luta pela audiência com um rival similar, mas a verdadeira briga parece ser quem atinge o mais baixo nível com atrações bizarras, uma enorme coincidência com a nossa realidade.
Crítica: Tenho andado preguiçosa para resenhas, se não me engano, já se passam 4 ou 5 livros desde a última, mas esse livro, de edição amarela, e a estranha palavra “cingido” no título me fizeram sentir obrigação de relatar a deliciosa experiência de ler Flavio Braga, autor até então desconhecido pela minha imensa ignorância.
Vamos ao livro: a proposta de mostrar a disputa entre dois canais de baixo nível é tão promissora que a gente quase sente que a autor vai escorregar e cair de cara num lugar comum ou numa chatice sem fim. Leitores experientes e realistas como eu sabem que nem sempre uma ótima idéia resulta num ótimo livro. Pois nesse caso resultou. O autor não só cumpre sua promessa como nos surpreende criando um personagem tão real que quase esperamos vê-lo ao ligar a tv.
Fredo Bastos, o tal apresentador-personagem, é um cara que você certamente conhece, você pode até ser um pouco Fredo Bastos. Ele é aquele cara que perdeu a noção, vestiu a camisa e a cueca da empresa, vendeu a alma, a mãe e a alma da mãe, tudo pelo sucesso, não só pelo dinheiro, mas pelo gostinho de se achar um ser de uma raça superior. E que ambiente seria mais adequado para se desenvolver um indivíduo dessa espécie do que a televisão?
“O Olhar cingido” tem gosto do big brother do big brother, ou seja, é a baixaria que está por trás da baixaria que passa na tv, portanto é real e infinitamente mais divertido. Mas o Fredo, como toda caricatura, tem seus momentos angustiados, tristes, até humanos. Momentos esses que dão à história o realismo de dor que toda comédia precisa.
Sei que tenho sido muito boazinha com meus autores, é que estou poupando as resenhas de livros ruins...(prometo ser cruel com o próximo), mas preciso dizer que o livro de Flavio Braga merecia um ibope altíssimo se tivesse sido adequadamente promovido.
Como ele próprio nos mostra, muitas vezes, os melhores programas não estão nos maiores canais nem nas prateleiras de mais vendidos.
Gisela Cesario
Crítica: Tenho andado preguiçosa para resenhas, se não me engano, já se passam 4 ou 5 livros desde a última, mas esse livro, de edição amarela, e a estranha palavra “cingido” no título me fizeram sentir obrigação de relatar a deliciosa experiência de ler Flavio Braga, autor até então desconhecido pela minha imensa ignorância.
Vamos ao livro: a proposta de mostrar a disputa entre dois canais de baixo nível é tão promissora que a gente quase sente que a autor vai escorregar e cair de cara num lugar comum ou numa chatice sem fim. Leitores experientes e realistas como eu sabem que nem sempre uma ótima idéia resulta num ótimo livro. Pois nesse caso resultou. O autor não só cumpre sua promessa como nos surpreende criando um personagem tão real que quase esperamos vê-lo ao ligar a tv.
Fredo Bastos, o tal apresentador-personagem, é um cara que você certamente conhece, você pode até ser um pouco Fredo Bastos. Ele é aquele cara que perdeu a noção, vestiu a camisa e a cueca da empresa, vendeu a alma, a mãe e a alma da mãe, tudo pelo sucesso, não só pelo dinheiro, mas pelo gostinho de se achar um ser de uma raça superior. E que ambiente seria mais adequado para se desenvolver um indivíduo dessa espécie do que a televisão?
“O Olhar cingido” tem gosto do big brother do big brother, ou seja, é a baixaria que está por trás da baixaria que passa na tv, portanto é real e infinitamente mais divertido. Mas o Fredo, como toda caricatura, tem seus momentos angustiados, tristes, até humanos. Momentos esses que dão à história o realismo de dor que toda comédia precisa.
Sei que tenho sido muito boazinha com meus autores, é que estou poupando as resenhas de livros ruins...(prometo ser cruel com o próximo), mas preciso dizer que o livro de Flavio Braga merecia um ibope altíssimo se tivesse sido adequadamente promovido.
Como ele próprio nos mostra, muitas vezes, os melhores programas não estão nos maiores canais nem nas prateleiras de mais vendidos.
Gisela Cesario
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Amor sem escalas – Walter Kirn
Sobre o quê: É a história da vida de um executivo que passa a maior parte do tempo viajando. Sua missão é demitir altos executivos de grandes empresas com o mínimo de estrago possível ( para a empresa, é claro). Sua maior preocupação é alcançar a meta de mil milhas viajadas.
Crítica: O fato de eu ser publicitária não me impede de enxergar o estrago que a propaganda é capaz de fazer quando usada indevidamente. O livro de Walter Kirn rapidamente se transformou em um produto altamente vendável depois de ter virado filme, mas foi o filme o primeiro a estraga-lo, fazendo com que o consumidor esperasse romance onde a história é, literalmente, outra. Não somente o título em português não tem nada a ver com o inglês “up in the air’, como também as imagens que divulgam o filme (o qual não sei se vou ver) passam uma idéia que vamos assistir a uma linda comédia romântica com o charmoso George clonney. Acontece que não há romance em “Amor sem escalas”, veja bem, não estou dizendo que há pouco romance, estou sendo enfática: NÃO existe história de amor no livro. Óbvio que isso jamais teria me incomodado se eu não tivesse visto as propagandas do filme e lido o título em português. Foi o que me fez ficar esperando algum romance ou dar importância a trechos que não tinham importância, prejudicando inclusive o julgamento sobre a qualidade da história.
Como já vi muitos anúncios serem destruídos em reuniões até virarem um lixo completo, imagino que Walter Kirn não teve culpa, não foi ele quem me prometeu tanto amor. Seu “up in the air”, lido sem falsas expectativas, proporciona ótimos momentos.
Ryan, o personagem central, é simplesmente o resultado de tudo que a vaidade do mercado de trabalho faz com todos nós. Ele nos mostra toda a tristeza e a agonia que a felicidade de um ótimo emprego proporciona, como se suavemente removesse o véu de cinismo presente nos discursos de pessoas teoricamente bem sucedidas. É um processo incrivelmente doloroso, mas isso, a dor, somente é percebida no final do livro, quando as observações de Ryan já nos fizeram sorrir bastante, principalmente ao identificar momentos e pessoas conhecidas, que mudam de empresa, de país, mas não de personalidade.
O autor consegue realizar um verdadeiro raio x da alma humana quando o corpo está de terno. As ambições, os limites, os sonhos e, mais do que tudo, a tristeza de fazer parte desse jogo vão sendo lentamente reveladas. E enquanto o leitor vai rindo, vai também sentindo a angústia de vender a alma ao patrão, seja ele quem for. A parte mais engraçada, no entanto, é perceber que o próprio autor também teve seu momento de Ryan, de profissional, de todos os nós, ao permitir que sua linda história desse origem a uma bobagem hollywoodiana. Talvez ele soubesse, em algum lugar profundo da sua perturbada alma executiva, que quem quisesse encontrar a verdade iria procurar na livraria, não no cinema.
Crítica: O fato de eu ser publicitária não me impede de enxergar o estrago que a propaganda é capaz de fazer quando usada indevidamente. O livro de Walter Kirn rapidamente se transformou em um produto altamente vendável depois de ter virado filme, mas foi o filme o primeiro a estraga-lo, fazendo com que o consumidor esperasse romance onde a história é, literalmente, outra. Não somente o título em português não tem nada a ver com o inglês “up in the air’, como também as imagens que divulgam o filme (o qual não sei se vou ver) passam uma idéia que vamos assistir a uma linda comédia romântica com o charmoso George clonney. Acontece que não há romance em “Amor sem escalas”, veja bem, não estou dizendo que há pouco romance, estou sendo enfática: NÃO existe história de amor no livro. Óbvio que isso jamais teria me incomodado se eu não tivesse visto as propagandas do filme e lido o título em português. Foi o que me fez ficar esperando algum romance ou dar importância a trechos que não tinham importância, prejudicando inclusive o julgamento sobre a qualidade da história.
Como já vi muitos anúncios serem destruídos em reuniões até virarem um lixo completo, imagino que Walter Kirn não teve culpa, não foi ele quem me prometeu tanto amor. Seu “up in the air”, lido sem falsas expectativas, proporciona ótimos momentos.
Ryan, o personagem central, é simplesmente o resultado de tudo que a vaidade do mercado de trabalho faz com todos nós. Ele nos mostra toda a tristeza e a agonia que a felicidade de um ótimo emprego proporciona, como se suavemente removesse o véu de cinismo presente nos discursos de pessoas teoricamente bem sucedidas. É um processo incrivelmente doloroso, mas isso, a dor, somente é percebida no final do livro, quando as observações de Ryan já nos fizeram sorrir bastante, principalmente ao identificar momentos e pessoas conhecidas, que mudam de empresa, de país, mas não de personalidade.
O autor consegue realizar um verdadeiro raio x da alma humana quando o corpo está de terno. As ambições, os limites, os sonhos e, mais do que tudo, a tristeza de fazer parte desse jogo vão sendo lentamente reveladas. E enquanto o leitor vai rindo, vai também sentindo a angústia de vender a alma ao patrão, seja ele quem for. A parte mais engraçada, no entanto, é perceber que o próprio autor também teve seu momento de Ryan, de profissional, de todos os nós, ao permitir que sua linda história desse origem a uma bobagem hollywoodiana. Talvez ele soubesse, em algum lugar profundo da sua perturbada alma executiva, que quem quisesse encontrar a verdade iria procurar na livraria, não no cinema.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Um homem chamado Jesus – Frei Beto
Sobre o quê: Frei Beto conta uma história que todos conhecemos ou já ouvimos falar: o Novo Testamento. A diferença é tom de romance de ficção, onde Jesus é o personagem principal.
Crítica: Me sinto meio idiota fazendo uma crítica da história de Jesus, então vamos deixar claro que o que avalio aqui é o texto do Frei Beto. Agora não me sinto mais ridícula nem idiota, só serei repetitiva em dizer o quanto o autor escreve divinamente. Confesso que nunca, apesar de inúmera tentativas, cheguei a ler a bíblia. Sou católica e tudo que conheço do novo ou do antigo testamento são os trechos que ouço na missa. Imagino que uma grande quantidade de pessoas sofra do mesmo mal: preguiça de entender melhor a história. Cada vez que ouvimos um pedaço do discurso do padre, tentamos juntá-lo a outros pedaços, mas na verdade não sabemos a ordem certa das coisas, pois a leitura dos textos segue o nosso calendário e não a ordem dos acontecimentos na vida de Jesus.
A cronologia é um dos grandes acertos do autor. Uma coisa tão óbvia e me parece que jamais alguém tenha pensado nisso. Ao contar a história de Jesus do início até os dias de hoje, Frei Beto nos espanta com a simplicidade que é reconhecer início, meio e fim numa trajetória que sempre nos pareceu conturbada, cheia de idas e vindas,num misto de narrativas dos apóstolos com ensinamentos de catecismo e homilias confusas. Na verdade, é errado falar em fim quando se trata da história de Jesus e, lamento estar estragando o final do livro, mas o maior acerto do autor é nos fazer entender a dimensão da eternidade da missão divina, ou, se não entender, pelo menos acreditar, já que também nos ensina o livro que a fé não se trata de compreensão e sim de crença. Por mais que eu fale, acho que não conseguirei contar todos os ensinamentos com que o autor nos presenteia, são coisas que todos nós pensamos que já sabemos, mas só descobrimos de verdade ao entender o quanto não sabemos. É como se, ao vislumbrar um enorme horizonte a ser percorrido, conseguíssemos finalmente perceber o quanto do caminho já foi feito. A história de Jesus contada por Frei Beto não é só a história de Jesus, é uma maneira de revelar a história da humanidade por um olhar diferente de tudo, inclusive da bíblia. Ao humanizar Jesus Cristo, Frei Beto repete a intenção divina de nos fazer entender nossa criação segundo Sua imagem e semelhança. Por isso, ler Um homem chamado Jesus promove uma verdadeira transformação do leitor em apóstolo, aprendiz de alguém muito sábio. Um autor chamado Frei Betto.
Gisela Cesario
Crítica: Me sinto meio idiota fazendo uma crítica da história de Jesus, então vamos deixar claro que o que avalio aqui é o texto do Frei Beto. Agora não me sinto mais ridícula nem idiota, só serei repetitiva em dizer o quanto o autor escreve divinamente. Confesso que nunca, apesar de inúmera tentativas, cheguei a ler a bíblia. Sou católica e tudo que conheço do novo ou do antigo testamento são os trechos que ouço na missa. Imagino que uma grande quantidade de pessoas sofra do mesmo mal: preguiça de entender melhor a história. Cada vez que ouvimos um pedaço do discurso do padre, tentamos juntá-lo a outros pedaços, mas na verdade não sabemos a ordem certa das coisas, pois a leitura dos textos segue o nosso calendário e não a ordem dos acontecimentos na vida de Jesus.
A cronologia é um dos grandes acertos do autor. Uma coisa tão óbvia e me parece que jamais alguém tenha pensado nisso. Ao contar a história de Jesus do início até os dias de hoje, Frei Beto nos espanta com a simplicidade que é reconhecer início, meio e fim numa trajetória que sempre nos pareceu conturbada, cheia de idas e vindas,num misto de narrativas dos apóstolos com ensinamentos de catecismo e homilias confusas. Na verdade, é errado falar em fim quando se trata da história de Jesus e, lamento estar estragando o final do livro, mas o maior acerto do autor é nos fazer entender a dimensão da eternidade da missão divina, ou, se não entender, pelo menos acreditar, já que também nos ensina o livro que a fé não se trata de compreensão e sim de crença. Por mais que eu fale, acho que não conseguirei contar todos os ensinamentos com que o autor nos presenteia, são coisas que todos nós pensamos que já sabemos, mas só descobrimos de verdade ao entender o quanto não sabemos. É como se, ao vislumbrar um enorme horizonte a ser percorrido, conseguíssemos finalmente perceber o quanto do caminho já foi feito. A história de Jesus contada por Frei Beto não é só a história de Jesus, é uma maneira de revelar a história da humanidade por um olhar diferente de tudo, inclusive da bíblia. Ao humanizar Jesus Cristo, Frei Beto repete a intenção divina de nos fazer entender nossa criação segundo Sua imagem e semelhança. Por isso, ler Um homem chamado Jesus promove uma verdadeira transformação do leitor em apóstolo, aprendiz de alguém muito sábio. Um autor chamado Frei Betto.
Gisela Cesario
sábado, novembro 14, 2009
Uma longa queda - Nick Hornby
Sobre o quê: Quatro pessoas com vidas completamente diferentes têm a mesma idéia na noite de reveillon: se suicidar pulando de um famoso prédio de Londres. O encontro, além de evitar suas mortes, muda suas vidas.
Crítica: Li quase todos os livros desse autor, digo quase porque dois eu parei no meio, e, finalmente, alegremente e sinceramente posso dizer que ele conseguiu de novo o que já tinha conseguido com Alta Fidelidade. Escreveu algo absurdamente fantástico.
São quatro narradores, os quatros suicidas, por isso a história consegue ter aquela alteração necessária de ritmo pra não ficar monótona sem mudar de assunto. Todos eles são incrivelmente egoístas, mesmo vivendo em mundos tão diferentes, por isso o ponto de vista de cada um conta quase a mesma coisa de uma forma totalmente oposta. Vejamos o grupo: um apresentador de TV mal-sucedido, uma adolescente revoltada, uma religiosa casta e mãe de um inválido e um jovem músico desiludido que virou entregador de pizza. Quase impossível pensar em pessoas que tivessem menos em comum. No entanto, um grande, imenso vazio as une, do tamanho de uma queda de muitos andares. É a perspectiva de vida. Os suicidas, opinião minha, além de serem algo egoístas, são também grandes visionários. Eles sabem que nada de bom vai acontecer. Eles sabem que não adianta mais tentar, nem esperar, nem desistir, nem mudar de direção, nem porcaria nenhuma. Eles sabem que já estão mortos, só falta a alma abandonar o corpo. Em suma: eles sabem mais que Deus. Não que eu tenha algo contra quem pensa em pôr fim à vida, quantas vezes já tive a mesma idéia? Quem nunca teve? Todos nós temos nossos momentos de pular do prédio e algo que nos segura (tirando, é claro, aqueles que realmente pulam).
Engraçado que só agora que estou escrevendo essa resenha percebo que esse livro me fez lembra de uma música, tema de um filme que esqueci o nome. O filme (calma, não vou mudar de assunto) era sobre um monte de gente ferrada que morava num prédio abandonado e a música começava assim (era em inglês): “Agora que eu pulei, eu vejo que a vida é boa, a vida é tem alegria, magia e televisão e surpresas, a vida é cheia de surpresas.” Acho que é nisso que um suicida não acredita mais. Em surpresas. Se você pensa na mera possibilidade de uma surpresa, você não se mata, nem que seja por curiosidade. Você espera a próxima surpresa.
O problema com as surpresas é que elas às vezes demoram tanto, mas tanto pra acontecer, que o sujeito se convence que sua vida será para sempre aquela sucessão de dias e noites aparentemente sem sentido e, já que não vai acontecer nada de bom mesmo, por que continuar? É como quando você desiste de um filme no meio porque tem certeza que ele não vai melhorar. Diria que em 99% das vezes a gente tem razão, o filme não melhora mesmo, alguns livros também não. Mas claro que não estou falando desse livro. Nosso autor conseguiu de novo fazer personagens que conhecemos tão bem que parecem nós mesmos em algum momento de nossas vidas. Pelo menos adolescentes e mal-sucedidos todos já fomos um dia.
Talvez ser velho não seja perder a esperança e sim acreditar nas surpresas, saber esperar por elas. Saber que um dia elas acontecem. Um dia alguma coisa pode mudar sua vida pra melhor. E pode até ser um livro.
Gisela Cesário.
Crítica: Li quase todos os livros desse autor, digo quase porque dois eu parei no meio, e, finalmente, alegremente e sinceramente posso dizer que ele conseguiu de novo o que já tinha conseguido com Alta Fidelidade. Escreveu algo absurdamente fantástico.
São quatro narradores, os quatros suicidas, por isso a história consegue ter aquela alteração necessária de ritmo pra não ficar monótona sem mudar de assunto. Todos eles são incrivelmente egoístas, mesmo vivendo em mundos tão diferentes, por isso o ponto de vista de cada um conta quase a mesma coisa de uma forma totalmente oposta. Vejamos o grupo: um apresentador de TV mal-sucedido, uma adolescente revoltada, uma religiosa casta e mãe de um inválido e um jovem músico desiludido que virou entregador de pizza. Quase impossível pensar em pessoas que tivessem menos em comum. No entanto, um grande, imenso vazio as une, do tamanho de uma queda de muitos andares. É a perspectiva de vida. Os suicidas, opinião minha, além de serem algo egoístas, são também grandes visionários. Eles sabem que nada de bom vai acontecer. Eles sabem que não adianta mais tentar, nem esperar, nem desistir, nem mudar de direção, nem porcaria nenhuma. Eles sabem que já estão mortos, só falta a alma abandonar o corpo. Em suma: eles sabem mais que Deus. Não que eu tenha algo contra quem pensa em pôr fim à vida, quantas vezes já tive a mesma idéia? Quem nunca teve? Todos nós temos nossos momentos de pular do prédio e algo que nos segura (tirando, é claro, aqueles que realmente pulam).
Engraçado que só agora que estou escrevendo essa resenha percebo que esse livro me fez lembra de uma música, tema de um filme que esqueci o nome. O filme (calma, não vou mudar de assunto) era sobre um monte de gente ferrada que morava num prédio abandonado e a música começava assim (era em inglês): “Agora que eu pulei, eu vejo que a vida é boa, a vida é tem alegria, magia e televisão e surpresas, a vida é cheia de surpresas.” Acho que é nisso que um suicida não acredita mais. Em surpresas. Se você pensa na mera possibilidade de uma surpresa, você não se mata, nem que seja por curiosidade. Você espera a próxima surpresa.
O problema com as surpresas é que elas às vezes demoram tanto, mas tanto pra acontecer, que o sujeito se convence que sua vida será para sempre aquela sucessão de dias e noites aparentemente sem sentido e, já que não vai acontecer nada de bom mesmo, por que continuar? É como quando você desiste de um filme no meio porque tem certeza que ele não vai melhorar. Diria que em 99% das vezes a gente tem razão, o filme não melhora mesmo, alguns livros também não. Mas claro que não estou falando desse livro. Nosso autor conseguiu de novo fazer personagens que conhecemos tão bem que parecem nós mesmos em algum momento de nossas vidas. Pelo menos adolescentes e mal-sucedidos todos já fomos um dia.
Talvez ser velho não seja perder a esperança e sim acreditar nas surpresas, saber esperar por elas. Saber que um dia elas acontecem. Um dia alguma coisa pode mudar sua vida pra melhor. E pode até ser um livro.
Gisela Cesário.
quarta-feira, outubro 21, 2009
Bárbara não quer perdão – Antonio Más
Sobre o quê: Num aparente acerto de contas, um travesti que teve, na infância, seus pedidos ignorados pela polícia, volta à cena para complicar a vida do mesmo Delegado que não lhe atendeu. Só que agora o próprio travesti é o criminoso e a tarefa do delegado tornou-se muito mais complicada.
Crítica: Raramente as orelhas têm razão. Se eu fosse uma pessoa que faz piadas idiotas, eu diria que não se deve dar ouvidos às orelhas, mas não sou. Tanto é que a orelha de “Bárbara não quer perdão” fala bem claro que o leitor não será capaz de parar quando começar a ler. Bom, já vi essa frase tantas vezes que perdi a conta, mas dessa vez a orelha fala sério. Li em dois dias, não contínuos obviamente, mas poderia ter lido em um se meus intervalos de leitura fossem maiores que uma hora. E chega de tempo, né? Vamos à crítica, que não existe. É uma crítica tão boa que deve se chamar logo elogio.
Antonio Más, até então um autor desconhecido no meu ignorante mundo, acaba de se tornar um ídolo. Confesso que ajudou o fato de eu ter abandonado pelo meio dois suspenses de autores famosos da companhia das letras por pura falta de paciência de continuar. Claro que isso influiu pra eu escolher um autor que fala minha língua literalmente e que narra um romance passado na minha cidade, o rio de janeiro. Aparentemente, isso é meio caminho andado, mas já vi esse meio caminho ser desandado várias vezes, por isso, creio que o mérito desse autor sobreviveria ainda que ele estivesse escrevendo em finlandês sobre algo acontecido na republica tcheca.
A história se passa com uma agilidade incrível, daquele tipo que faz você virar as páginas tão rapidamente a ponto de quem está a sua volta pensar se você está realmente lendo ou apenas olhando. Só que, além da vontade de devorar, ele desperta ainda a vontade de saborear. Por isso, voltei algumas páginas, principalmente as finais, pra fazer um slow motion das manobras literárias de Antonio Más que mereciam ser apreciadas devagarzinho, estilo degustação.
É um suspense perfeito, onde ninguém é totalmente bonzinho ou totalmente mauzinho, todos os acontecimentos são verossímeis e os personagens, como em toda boa história, não são meros personagens. São gente de verdade. E o final é surpreendente inclusive pra quem, como eu, já espera um final surpreendente. Enfim, pra não dizer que é tudo impecável, a capa da minha edição é meio brega, irrelevante, já que pra mim as orelhas são mais importantes que as capas, apenas um registro para as futuras edições. Afinal, tenho certeza que não sou só eu que vou querer mais ou, pra fechar com um trocadilho tão bobo quanto o do início, todo mundo vai querer Más.
Gisela Cesario
Crítica: Raramente as orelhas têm razão. Se eu fosse uma pessoa que faz piadas idiotas, eu diria que não se deve dar ouvidos às orelhas, mas não sou. Tanto é que a orelha de “Bárbara não quer perdão” fala bem claro que o leitor não será capaz de parar quando começar a ler. Bom, já vi essa frase tantas vezes que perdi a conta, mas dessa vez a orelha fala sério. Li em dois dias, não contínuos obviamente, mas poderia ter lido em um se meus intervalos de leitura fossem maiores que uma hora. E chega de tempo, né? Vamos à crítica, que não existe. É uma crítica tão boa que deve se chamar logo elogio.
Antonio Más, até então um autor desconhecido no meu ignorante mundo, acaba de se tornar um ídolo. Confesso que ajudou o fato de eu ter abandonado pelo meio dois suspenses de autores famosos da companhia das letras por pura falta de paciência de continuar. Claro que isso influiu pra eu escolher um autor que fala minha língua literalmente e que narra um romance passado na minha cidade, o rio de janeiro. Aparentemente, isso é meio caminho andado, mas já vi esse meio caminho ser desandado várias vezes, por isso, creio que o mérito desse autor sobreviveria ainda que ele estivesse escrevendo em finlandês sobre algo acontecido na republica tcheca.
A história se passa com uma agilidade incrível, daquele tipo que faz você virar as páginas tão rapidamente a ponto de quem está a sua volta pensar se você está realmente lendo ou apenas olhando. Só que, além da vontade de devorar, ele desperta ainda a vontade de saborear. Por isso, voltei algumas páginas, principalmente as finais, pra fazer um slow motion das manobras literárias de Antonio Más que mereciam ser apreciadas devagarzinho, estilo degustação.
É um suspense perfeito, onde ninguém é totalmente bonzinho ou totalmente mauzinho, todos os acontecimentos são verossímeis e os personagens, como em toda boa história, não são meros personagens. São gente de verdade. E o final é surpreendente inclusive pra quem, como eu, já espera um final surpreendente. Enfim, pra não dizer que é tudo impecável, a capa da minha edição é meio brega, irrelevante, já que pra mim as orelhas são mais importantes que as capas, apenas um registro para as futuras edições. Afinal, tenho certeza que não sou só eu que vou querer mais ou, pra fechar com um trocadilho tão bobo quanto o do início, todo mundo vai querer Más.
Gisela Cesario
quarta-feira, julho 15, 2009
Um trem noturno para Lisboa
Sobre o quê: Mundus, professor de línguas clássicas em um liceu na Suíça, resolve, por causa do encontro com uma portuguesa, mudar completamente de vida. Então,após uma aula, ele simplesmente se levanta e decide ir para Lisboa a fim de fazer uma investigação tão complexa quanto o sentido da vida.
Crítica: Existem histórias cujas palavras nos acariciam, nos consolam, como um cafuné materno que afasta nossos problemas e nos certifica que está tudo bem. O fato de “Um trem noturno para Lisboa” ser uma dessas histórias não é o mais impressionante. O mais impressionante é que normalmente, histórias assim são “água com açúcar” e essa obra, apesar de doce, não tem nada de molenga, pelo contrário. É uma história principalmente de uma alma inquieta, que não encontra paz nem mesmo nos sonhos.
Mundus, o solitário professor, percebe que, abaixo da calma superficial de sua rotina de aulas, existe um maremoto de emoções a serem vividas, a serem ainda descobertas. E, para alguém absolutamente viciado em linguagem como ele, a percepção não poderia ter vindo de outra maneira a não ser por meio de uma palavra, uma simples palavra: português. Como não se identificar? Nosso personagem vinha passando por uma ponte quando vê uma mulher prestes a se suicidar. Ao iniciar uma conversa com ela, vem a resposta que indica a língua natal da possível suicida: português. Pronto. Ao ouvir o som da palavra com pronúncia lusitana ( muito diferente da nossa, é verdade), Mundus se apaixona perdidamente, não pela mulher, mas pela palavra. Não parece muito louco? Talvez não, todo bom leitor tem suas palavras prediletas, mas acho que poucos resolveram transformar suas vidas por uma delas.
Próximo passo, Mundus vai até uma livraria onde encontra, além de Fernando Pessoa, um livro de uma única edição, cujo autor chama-se Prado. Acostumado a traduções gregas e latinas, um dicionário de português não é nada para esse cara. E lá vai ele para casa, lutar com o texto, tentando entender a vida do português médico e revolucionário. Horas depois, ele está em um trem para Lisboa, a terra do português (sem piadinhas). É impossível não sentir um certo orgulho em ser um dos falantes dessa tão fascinante língua, pelo menos na opinião dele. Mas o autor faz muito mais do que nos mimar. Ao investigar a vida e os textos de Prado, Mundus nos leva por uma incrível aula de filosofia, pois cada escrito descoberto do português traz questionamentos ao mesmo tempo óbvios e surpreendentes, como quando uma criança nos faz perguntas desconcertantes para as quais já esquecemos de procurar as respostas. E é justamente essa inquietude dos questionamentos que pacifica a alma do leitor. Como pensar em nossos idiotas problemas quando as coisas mais importantes de todo universo, como a vida e a morte, estão ali, na nossa frente, descritas em belíssimas e deslizantes linhas, sugando nossa atenção?
Portanto, ler “Um trem noturno para Lisboa” não é somente lazer, é também terapia. Cheguei mesmo a tomar algumas decisões importantes levada pela impetuosidade dos personagens. Claro que não vou dizer como termina a busca de Mundus, simplesmente porque sua história não é daquelas que acabam no fim do livro. Ela fica conosco, nos reconfortando ou desassossegando, quando menos esperamos ou quando mais precisamos, em algum lugar entre o cérebro e coração.
Gisela Cesario
Crítica: Existem histórias cujas palavras nos acariciam, nos consolam, como um cafuné materno que afasta nossos problemas e nos certifica que está tudo bem. O fato de “Um trem noturno para Lisboa” ser uma dessas histórias não é o mais impressionante. O mais impressionante é que normalmente, histórias assim são “água com açúcar” e essa obra, apesar de doce, não tem nada de molenga, pelo contrário. É uma história principalmente de uma alma inquieta, que não encontra paz nem mesmo nos sonhos.
Mundus, o solitário professor, percebe que, abaixo da calma superficial de sua rotina de aulas, existe um maremoto de emoções a serem vividas, a serem ainda descobertas. E, para alguém absolutamente viciado em linguagem como ele, a percepção não poderia ter vindo de outra maneira a não ser por meio de uma palavra, uma simples palavra: português. Como não se identificar? Nosso personagem vinha passando por uma ponte quando vê uma mulher prestes a se suicidar. Ao iniciar uma conversa com ela, vem a resposta que indica a língua natal da possível suicida: português. Pronto. Ao ouvir o som da palavra com pronúncia lusitana ( muito diferente da nossa, é verdade), Mundus se apaixona perdidamente, não pela mulher, mas pela palavra. Não parece muito louco? Talvez não, todo bom leitor tem suas palavras prediletas, mas acho que poucos resolveram transformar suas vidas por uma delas.
Próximo passo, Mundus vai até uma livraria onde encontra, além de Fernando Pessoa, um livro de uma única edição, cujo autor chama-se Prado. Acostumado a traduções gregas e latinas, um dicionário de português não é nada para esse cara. E lá vai ele para casa, lutar com o texto, tentando entender a vida do português médico e revolucionário. Horas depois, ele está em um trem para Lisboa, a terra do português (sem piadinhas). É impossível não sentir um certo orgulho em ser um dos falantes dessa tão fascinante língua, pelo menos na opinião dele. Mas o autor faz muito mais do que nos mimar. Ao investigar a vida e os textos de Prado, Mundus nos leva por uma incrível aula de filosofia, pois cada escrito descoberto do português traz questionamentos ao mesmo tempo óbvios e surpreendentes, como quando uma criança nos faz perguntas desconcertantes para as quais já esquecemos de procurar as respostas. E é justamente essa inquietude dos questionamentos que pacifica a alma do leitor. Como pensar em nossos idiotas problemas quando as coisas mais importantes de todo universo, como a vida e a morte, estão ali, na nossa frente, descritas em belíssimas e deslizantes linhas, sugando nossa atenção?
Portanto, ler “Um trem noturno para Lisboa” não é somente lazer, é também terapia. Cheguei mesmo a tomar algumas decisões importantes levada pela impetuosidade dos personagens. Claro que não vou dizer como termina a busca de Mundus, simplesmente porque sua história não é daquelas que acabam no fim do livro. Ela fica conosco, nos reconfortando ou desassossegando, quando menos esperamos ou quando mais precisamos, em algum lugar entre o cérebro e coração.
Gisela Cesario
Assinar:
Postagens (Atom)