Sobre o quê: Tendo como cenário a Alemanha dividida pelo muro de Berlim, um espião inglês desempenha uma complicada missão em vários países da europa. Seu nome é Alec Leamas e um dos maiores desafios de sua missão é viver diferentes personagens sem se transformar em um deles.
Crítica: Primeiro de tudo, há que se dizer que é um livro complicado. Claro, toda história que tem como pano de fundo a Alemanha, Rússia ou qualquer outro país onde mais de três consoantes juntas podem ser usadas numa palavra, exige, no mínimo, uma dose de atenção maior do leitor. As organizações têm nomes impronunciáveis, as cidades idem, mas a genialidade e o sentimento de Jonh Lê Carré nos dão forças. É tão importante saber o que se passa na confusa mente do nosso agente secreto que encaramos os nomes dos lugares mais estapafúrdios como se fossem souzas e silvas. E tome Abteilung...Na verdade, tanta complicação esconde a história mais simples da humanidade. Um cara durão, capaz de beber até não cair, capaz de apanhar até não desmaiar, capaz de mentir até não se contradizer é pego numa grande armadilha. Não pela organização rival, mas pelo seu próprio coração. Toda sua força e experiência como agente secreto não são suficientes para evitar que ele se apaixone por um bibliotecária carinhosa e pura e dócil, como todas as mulheres merecedoras de um grande amor devem ser, que, só para não perder o rumo complicado da história, é participante do partido comunista. Uma presa fácil para as organizações criminosas que se digladiam pelo poder através de seus agentes secretos. Parece cansativo e é. O livro é uma maratona com obstáculos, mas atravessei todos eles com a esperança de ser a leitora também de uma linda história de amor. O final não é feliz. É cinza como imaginamos que a vida entre as duas alemanhas num dia frio deve ser. É escuro como a noite que esconde os espiões. É amargo como a vida de quem nunca pode assumir uma identidade normal. E, talvez por tudo isso, mereça ainda mais ser uma história de amor. Não daquelas com finais felizes. Mas daquelas com finais reais.
P. S. – Coincidências - Uma: No mesmo período, assisti ao “Jardineiro Fiel” , e descobri que era também de Jonh Lê Carré, Outra: No dia seguinte, assisti “Das coisas belas e sujas” e re-assisti “Alta Fidelidade”, e descobri que os dois são do mesmo diretor, Stephen Frears. A vida vem realmente aos pares, e não é só de havaiana...entendam isso como quiserem.
Gisela Cesario
Este é um blog de crítica literária. O objetivo é puramente entretenimento. Todas as críticas refletem apenas a opinião e o gosto pessoal da autora do blog. Não há, em momento algum, pretensão de julgar a obra exposta. Se qualquer autor(a) se sentir ofendido por essas palavras, pedimos desculpas por nosso erro, pois certamente não escrevemos com esse intuito. PS - Eventualmente, você também poderá encontrar aqui resenhas de filmes
terça-feira, novembro 15, 2005
quarta-feira, novembro 09, 2005
Mandrake - a bíblia e a bengala – Rubem Fonseca
Sobre o quê: Mandrake é um advogado criminal que já apareceu em dois livros: “E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto” e “A grande arte”. Agora o autor nos aproxima da vida pessoal e profissional e de Mandrake, contando suas diversas aventuras de detetive.
Crítica: Me perdoem se eu estiver errada (perdoem também esse começo ), continuo, mas esse livro não era para ser um romance, quer dizer, uma história só? Li na contracapa: “nova aventura de mistério e suspense”. Uma relação tão estreita quanto a de um livro com o leitor não pode começar com uma mentira. Senão a primeira coisa que o leitor sente é decepção. Sou fã de carteirinha do Rubem Fonseca, mas foi isso que senti quando percebi que o livro é quase um livro de contos, como as aventuras de Ed Mort. Claro que isso não desmerece em nada o livro, mas quem compra uma banana quer uma banana, por mais que goste de maçãs. Fruta por fruta, o livro também não é um abacaxi, mas precisava registrar esse fato que teria mudado minhas expectativas e conseqüentemente minhas opiniões, que é melhor eu dizer logo quais são. Vamos lá. Ninguém abre um livro do Rubem Fonseca sem um grande tesão. Como também sou fã de romances policiais, estava maravilhada com o fato de um de meus autores preferidos ter escrito um e mais maravilhada porque ele estava nas minhas mãos, pronto para ser devorado. Fui devorando até o meio quando percebi que havia uma grande divisão entre a bíblia e a bengala. São duas histórias distintas que tem o personagem principal, Mandrake, e alguns outros em comum, mas são duas e não uma como se induz o leitor a pensar. Se você compra um livro cujo nome é Romeu e Julieta, você não acha que primeiro vai ler a história do Romeu, depois a da Julieta, e, no meio da última, algumas outras. Isso doeu. E doeu mais porque é o Rubem Fonseca. Respirei fundo e me conformei. Não foi difícil porque o Mandrake é o personagem mais Rubem Fonseca de Rubem Fonseca, engraçado, cínico, amoral, o detetive por quem se apaixona todo aquele que ama histórias policiais. As do Mandrake são divertidas, mas (infelizmente) não têm a estrutura que um policial classe “A” deve ter. Principalmente a da bengala, onde há falhas que bons detetives de história de detetives certamente vão encontrar. Quer um conselho? Fique com a vida do Mandrake e esqueça os mistérios. Ele é o lado Rubem Fonseca do livro. Quer outro? Espere o próximo livro do autor e torça para que esse seja inteiramente Rubem Fonseca.
Gisela Cesario
Crítica: Me perdoem se eu estiver errada (perdoem também esse começo ), continuo, mas esse livro não era para ser um romance, quer dizer, uma história só? Li na contracapa: “nova aventura de mistério e suspense”. Uma relação tão estreita quanto a de um livro com o leitor não pode começar com uma mentira. Senão a primeira coisa que o leitor sente é decepção. Sou fã de carteirinha do Rubem Fonseca, mas foi isso que senti quando percebi que o livro é quase um livro de contos, como as aventuras de Ed Mort. Claro que isso não desmerece em nada o livro, mas quem compra uma banana quer uma banana, por mais que goste de maçãs. Fruta por fruta, o livro também não é um abacaxi, mas precisava registrar esse fato que teria mudado minhas expectativas e conseqüentemente minhas opiniões, que é melhor eu dizer logo quais são. Vamos lá. Ninguém abre um livro do Rubem Fonseca sem um grande tesão. Como também sou fã de romances policiais, estava maravilhada com o fato de um de meus autores preferidos ter escrito um e mais maravilhada porque ele estava nas minhas mãos, pronto para ser devorado. Fui devorando até o meio quando percebi que havia uma grande divisão entre a bíblia e a bengala. São duas histórias distintas que tem o personagem principal, Mandrake, e alguns outros em comum, mas são duas e não uma como se induz o leitor a pensar. Se você compra um livro cujo nome é Romeu e Julieta, você não acha que primeiro vai ler a história do Romeu, depois a da Julieta, e, no meio da última, algumas outras. Isso doeu. E doeu mais porque é o Rubem Fonseca. Respirei fundo e me conformei. Não foi difícil porque o Mandrake é o personagem mais Rubem Fonseca de Rubem Fonseca, engraçado, cínico, amoral, o detetive por quem se apaixona todo aquele que ama histórias policiais. As do Mandrake são divertidas, mas (infelizmente) não têm a estrutura que um policial classe “A” deve ter. Principalmente a da bengala, onde há falhas que bons detetives de história de detetives certamente vão encontrar. Quer um conselho? Fique com a vida do Mandrake e esqueça os mistérios. Ele é o lado Rubem Fonseca do livro. Quer outro? Espere o próximo livro do autor e torça para que esse seja inteiramente Rubem Fonseca.
Gisela Cesario
sexta-feira, setembro 02, 2005
Júlio Sumiu - Beto Silva
Sobre o quê: Um adolescente de classe média alta desaparece de sua casa. A mãe e o pai entram em desespero imaginando os horrores de um sequestro. O irmão está mais precocupado em se aproveitar da situação e toda a família acaba envolvida com traficantes e com a polícia de forma absolutamente hilária.
Crítica: Seu casseta escreveu um livro do casseta. Até Júlio Sumiu só Chico Buarque (com Budapeste) tinha me feito ter vontade de reler um livro que eu acabei de ler. Sério. Tive que me segurar para não passar mais uma semana relendo Júlio Sumiu. Um suspense onde todas as peças se encaixam direitinho e mesmo usando a minha super peneira não vi ficar nada que não tivesse uma boa e verossímel explicação. Mas o melhor é o riso. Na capa do livro, está escrito suspense com humor. Devia ser suspense hilário. Passei por maluca várias vezes lendo Júlio Sumiu e rindo sozinha. Beto Silva mostra, que além de um corpinho sarado, tem uma mente mais brilhante que talher em comercial de bombril. Observador atento de todas as manias da nossa sociedade, o autor reconstrói, com requinte de perfeição, a vida de uma familia de classe media da zona sul carioca, o ambiente de uma delegacia, a rotina do tráfico de drogas, a impunidade. E o mais interessante é ver que o humor não atrapalha nada disso. Muito pelo contrário. O humor faz parte do nosso caos, sem humor essa realidade não poderia ser tao bem retratada. É triste fugir de bala perdida, morar na favela, conviver com práticas ilegais, mas é isso que a gente faz no Rio de Janeiro ou em qualquer grande cidade do Brasil. E faz rindo, como no livro do Beto Silva. Se eu fosse um sociólogo, diria que esse livro poderia ser uma tese do comportamento do cidadão diante do caos, olhando-se com frieza, não há situação alguma na história que seja engracada. Um possível sequestro, um envolvimento com traficantes, a dor de uma mãe que pensa ter perdido o filho, a corrupção da polícia. São fatos tristíssimos, podia ser uma novela mexicana. Mas é o texto mais engracado que eu li nos ultimos tempos. Talvez seja isso que a gente faça todos os dias. Focando na graça da desgraça. Afinal, se a vida te deu um limão, arrume mais dois e faca malabarismo no sinal. Felicidade está aí mesmo, para quem assiste menos Jornal Nacional e mais Casseta e Planeta. É possível ser alegre, feliz e sambar no meio de tanta loucura. Se você duvida, faça esse favor a você mesmo. Leia Júlio Sumiu. E como eu não podia terminar de outra forma, vou ter que dizer isso. É do casseta.
Gisela Cesario
Crítica: Seu casseta escreveu um livro do casseta. Até Júlio Sumiu só Chico Buarque (com Budapeste) tinha me feito ter vontade de reler um livro que eu acabei de ler. Sério. Tive que me segurar para não passar mais uma semana relendo Júlio Sumiu. Um suspense onde todas as peças se encaixam direitinho e mesmo usando a minha super peneira não vi ficar nada que não tivesse uma boa e verossímel explicação. Mas o melhor é o riso. Na capa do livro, está escrito suspense com humor. Devia ser suspense hilário. Passei por maluca várias vezes lendo Júlio Sumiu e rindo sozinha. Beto Silva mostra, que além de um corpinho sarado, tem uma mente mais brilhante que talher em comercial de bombril. Observador atento de todas as manias da nossa sociedade, o autor reconstrói, com requinte de perfeição, a vida de uma familia de classe media da zona sul carioca, o ambiente de uma delegacia, a rotina do tráfico de drogas, a impunidade. E o mais interessante é ver que o humor não atrapalha nada disso. Muito pelo contrário. O humor faz parte do nosso caos, sem humor essa realidade não poderia ser tao bem retratada. É triste fugir de bala perdida, morar na favela, conviver com práticas ilegais, mas é isso que a gente faz no Rio de Janeiro ou em qualquer grande cidade do Brasil. E faz rindo, como no livro do Beto Silva. Se eu fosse um sociólogo, diria que esse livro poderia ser uma tese do comportamento do cidadão diante do caos, olhando-se com frieza, não há situação alguma na história que seja engracada. Um possível sequestro, um envolvimento com traficantes, a dor de uma mãe que pensa ter perdido o filho, a corrupção da polícia. São fatos tristíssimos, podia ser uma novela mexicana. Mas é o texto mais engracado que eu li nos ultimos tempos. Talvez seja isso que a gente faça todos os dias. Focando na graça da desgraça. Afinal, se a vida te deu um limão, arrume mais dois e faca malabarismo no sinal. Felicidade está aí mesmo, para quem assiste menos Jornal Nacional e mais Casseta e Planeta. É possível ser alegre, feliz e sambar no meio de tanta loucura. Se você duvida, faça esse favor a você mesmo. Leia Júlio Sumiu. E como eu não podia terminar de outra forma, vou ter que dizer isso. É do casseta.
Gisela Cesario
sábado, agosto 13, 2005
Um bom ano - Peter Mayle
Sobre o quê- Um executivo do mercado financeiro é subitamente demitido e, no mesmo dia, descobre que ganhou uma herança do tio. Uma propriedade na França, onde ele costumava passar as férias. O lugar é enorme, fica no charmoso interior francês e tem até uma produção independente de vinhos. Ele viaja sonhando em mudar de vida, conhece várias pessoas e descobre um segredo muito importante.
Crítica – Desculpem o “sobre o quê” tão bobão, mas a história é essa mesma, e o segredo é mesmo importante para a história. A história é que não é importante para o fato de gostar ou não do livro. Ex- redator publicitário, Peter Mayle se especializou em escrever livros falando da boa vida dos franceses do interior. Começou com “ Um ano na Provence”, que realmente era incrível. Mas talvez fosse assim porque eu nunca tinha ouvido falar na Provence e tudo era novidade naquele livro. Os cenários eram maravilhosas, as descrições não eram chatas, todas milagrosamente feitas na hora certa, e havia alguma coisa naquela literatura que realmente fazia a gente se sentir na Provence. Venho buscando essa sensação em todos os outros livros de Peter Mayle, se não me engano esse é o quarto que leio. Até agora não descobri se é não acho nada demais porque comparo todos ao primeiro ou se não são nada demais mesmo. Em seu último romance, o autor nos leva a um passeio por uma pequenina cidade no interior da França, mostra os peculiares hábitos de seus habitantes, descreve com louvor o apetite deles, obviamente motivado pela comida e a bebida e também faz um misteriozinho. Esse ingrediente final ( com tanta comida no livro, ingrediente é palavra certa) é a única diferença desse livro para os demais. E é um mistério tão pequeno que nem o próprio autor parece dar valor a ele. Faz muito bem. Leitores de Peter Mayle gostam mesmo é de passear por vinícolas francesas, ler um texto bem humorado e de tão bom gosto quanto a comida descrita. Não é um livro que você não consegue largar, mas é um livro que você tem vontade de pegar para relaxar, meio como se faz com a sessão de quadrinhos do jornal, sem pretensão de seriedade mas com um certeza de qualidade. Muita gente chamaria de literatura fácil, mas quem não quer uma vida fácil e regada a vinho de vez em quando? Só faltava vir com o aviso “leia com moderação”.
Gisela Cesário
Crítica – Desculpem o “sobre o quê” tão bobão, mas a história é essa mesma, e o segredo é mesmo importante para a história. A história é que não é importante para o fato de gostar ou não do livro. Ex- redator publicitário, Peter Mayle se especializou em escrever livros falando da boa vida dos franceses do interior. Começou com “ Um ano na Provence”, que realmente era incrível. Mas talvez fosse assim porque eu nunca tinha ouvido falar na Provence e tudo era novidade naquele livro. Os cenários eram maravilhosas, as descrições não eram chatas, todas milagrosamente feitas na hora certa, e havia alguma coisa naquela literatura que realmente fazia a gente se sentir na Provence. Venho buscando essa sensação em todos os outros livros de Peter Mayle, se não me engano esse é o quarto que leio. Até agora não descobri se é não acho nada demais porque comparo todos ao primeiro ou se não são nada demais mesmo. Em seu último romance, o autor nos leva a um passeio por uma pequenina cidade no interior da França, mostra os peculiares hábitos de seus habitantes, descreve com louvor o apetite deles, obviamente motivado pela comida e a bebida e também faz um misteriozinho. Esse ingrediente final ( com tanta comida no livro, ingrediente é palavra certa) é a única diferença desse livro para os demais. E é um mistério tão pequeno que nem o próprio autor parece dar valor a ele. Faz muito bem. Leitores de Peter Mayle gostam mesmo é de passear por vinícolas francesas, ler um texto bem humorado e de tão bom gosto quanto a comida descrita. Não é um livro que você não consegue largar, mas é um livro que você tem vontade de pegar para relaxar, meio como se faz com a sessão de quadrinhos do jornal, sem pretensão de seriedade mas com um certeza de qualidade. Muita gente chamaria de literatura fácil, mas quem não quer uma vida fácil e regada a vinho de vez em quando? Só faltava vir com o aviso “leia com moderação”.
Gisela Cesário
segunda-feira, julho 25, 2005
Assassinato na ABL
Sobre o quê: Uma mórbida coincidência dá início a uma história de assassinatos: um senador que acabara de escrever um livro sobre o envenenamento de todos os imortais é envenenado e morre no dia de sua posse na academia. Essa é a apenas a primeira da série de mortes que terá que ser desvendada pelo comissário Machado Machado, cujo pai era fã de Machado de Assis.
Crítica: É ótimo. Todo mundo devia ler. Pronto. Podia acabar a crítica por aqui mesmo, mas preciso chover no molhado. Bom, Jô Soares é engraçado. Alguém sabia disso? Mesmo quem já esqueceu aquele gordo do viva o gordo, se é que isso é possível, vai reencontra-lo lá nas páginas do seu assassinato na ABL. Alguns diálogos parecem ter saído de dentro do programa, você pode chegar a imaginar o cenário e os personagens fantasiados. Pero, sin perder la seriedad Del mysterio...Sim. Mais uma vez Jô nos mostrar que joga nas onze e ainda faz gol de cabeça. Sem a comédia, seria um ótimo livro de mistério, pois todos os ingredientes do policial perfeito estão lá: envolvimentos amorosos, noites mal dormidas, pistas indecifráveis, suspeitos prováveis, suspeitos possíveis e, claro, um final surpreendente e totalmente lógico. Agora, sem o mistério, seria um ótimo livro de humor, porque nosso detetive é o Jô, nosso suspeito é o Jô, os membros da ABL, as mulheres fatais, os motoristas, os mordomos, todos são o Jô, com o mesmo humor impagável. Mas mesmo sem o mistério e sem o humor, seria um ótimo livro de literatura porque nos faz viajar no tempo até 1920 com todos os detalhes. Se fosse um filme, seria um daqueles em que você fica procurando um erro no cenário e se surpreende com o cuidado da produção. Não faltam nem os anúncios de remédio para tosse no bonde. E como as palavras são o cenário de um livro, Jô nos cerca de termos charmosos e rebuscados, de um português que, apesar de pedir um Aurélio de vez em quando, nos envolve num encantamento histórico tão grande a ponto de lá pelo meio do livro estarmos passeando bem à vontade pelas ruas do início do século passado. Li uma crítica ruim a este livro e confesso que fiquei torcendo para que o autor da crítica estivesse errado, para que fosse inveja, sei lá. Comecei a ler com o pé atrás ( leio bem nessa posição) e fui até o fim assim, mas valeu a pena porque pude confirmar com todas as letras das belas e perfeitas palavras de Jô. Se alguém falou mal era inveja. Ou sei lá.
Gisela Cesário
Crítica: É ótimo. Todo mundo devia ler. Pronto. Podia acabar a crítica por aqui mesmo, mas preciso chover no molhado. Bom, Jô Soares é engraçado. Alguém sabia disso? Mesmo quem já esqueceu aquele gordo do viva o gordo, se é que isso é possível, vai reencontra-lo lá nas páginas do seu assassinato na ABL. Alguns diálogos parecem ter saído de dentro do programa, você pode chegar a imaginar o cenário e os personagens fantasiados. Pero, sin perder la seriedad Del mysterio...Sim. Mais uma vez Jô nos mostrar que joga nas onze e ainda faz gol de cabeça. Sem a comédia, seria um ótimo livro de mistério, pois todos os ingredientes do policial perfeito estão lá: envolvimentos amorosos, noites mal dormidas, pistas indecifráveis, suspeitos prováveis, suspeitos possíveis e, claro, um final surpreendente e totalmente lógico. Agora, sem o mistério, seria um ótimo livro de humor, porque nosso detetive é o Jô, nosso suspeito é o Jô, os membros da ABL, as mulheres fatais, os motoristas, os mordomos, todos são o Jô, com o mesmo humor impagável. Mas mesmo sem o mistério e sem o humor, seria um ótimo livro de literatura porque nos faz viajar no tempo até 1920 com todos os detalhes. Se fosse um filme, seria um daqueles em que você fica procurando um erro no cenário e se surpreende com o cuidado da produção. Não faltam nem os anúncios de remédio para tosse no bonde. E como as palavras são o cenário de um livro, Jô nos cerca de termos charmosos e rebuscados, de um português que, apesar de pedir um Aurélio de vez em quando, nos envolve num encantamento histórico tão grande a ponto de lá pelo meio do livro estarmos passeando bem à vontade pelas ruas do início do século passado. Li uma crítica ruim a este livro e confesso que fiquei torcendo para que o autor da crítica estivesse errado, para que fosse inveja, sei lá. Comecei a ler com o pé atrás ( leio bem nessa posição) e fui até o fim assim, mas valeu a pena porque pude confirmar com todas as letras das belas e perfeitas palavras de Jô. Se alguém falou mal era inveja. Ou sei lá.
Gisela Cesário
terça-feira, julho 19, 2005
Coleção Primavera-Verão – Judith Kant
Sobre o quê: Para o Lançamento da coleção Primavera -Verão de um novo estilista francês, foi criado um concurso entre as agências de modelos de NY, O que quase todos desconhecem é o fato de tudo ser um estratagema do patrocinador para entrar em contato com a filha que ele nunca conheceu, a dona da agência escolhida. Os preparativos para o grande desfile vão provocar uma reviravolta na vida das modelos, jornalistas e fotógrafos envolvidos.
Crítica: Quem nunca leu um livrinho da Sabrina comprado no jornaleiro atire o primeiro lenço de tafetá (logicamente, úmido de emoção). Coleção Primavera Verão nos traz de volta essa atmosfera sabrinesca. Para quem desconhece o gênero, eram uns romances bem água com açúcar que tinham passagens picantes onde se usavam expressões como “membro duro e intumescido”. No livro de Judith Kant ( escritora de Lúxuria – não li mas já dá pra advinhar), podem se encontrar uma série de membros duros, mamilos rosados, pernas bambas, etceteras molhados e por aí vai. Mas não é um livro pornográfico, ou é o que se chamaria de livro pornográfico para mulheres. Bom, pela capa eu percebi que se tratava da cada vez mais famosa “literatura feminina”, detesto o termo, mas explicarei minhas convicções ideológicas em outra oportunidade. As primeiras páginas me convenceram que se tratava de uma história bem humorada e cheia de frescuras que só as mulheres entendem, até aí ótimo, ia tudo muito brigdet Jones quando os personagens começaram repentinamente a respirar um ar de novela mexicano. Pessoas que mal se conheciam trocavam declarações apaixonadas, envoltas pela realidade que se dissolvia num limbo cor de rosa. Enfim, de uma hora para outra você tem a certeza que a trama da história deixa de ter importância e não se deve perder tempo levando alguma coisa a sério. O negócio é se divertir com os diálogos piegas e improváveis, se deixar levar pelo tesão do membro intumescido e quando não der mesmo, simplesmente ter um ataque de risos. Se fosse uma novela, seria Malhação. As modelos não fazem nada a não ser vestir coisas lindas, beber e se apaixonar. Tudo isso em Paris. Declarações de amor à beira do Rio Sena, noites de festas, sexo tórrido ( claro, tórrido), um intenso clima de vale tudo ( mulher com mulher, velho com moça, pobre com rico) e mucha, mucha fofoca. Por que gostamos de coisas assim? Não sei, mas mesmo sem nenhuma pretensão literária, Judith consegue nos divertir mais do que muita comédia bem escrita. Acho que todos nós temos, se não um lado negro, um lado roxo, com bolinhas cor de rosa cintilantes. Ah, e muitas purpurinas.
Gisela Cesario
Crítica: Quem nunca leu um livrinho da Sabrina comprado no jornaleiro atire o primeiro lenço de tafetá (logicamente, úmido de emoção). Coleção Primavera Verão nos traz de volta essa atmosfera sabrinesca. Para quem desconhece o gênero, eram uns romances bem água com açúcar que tinham passagens picantes onde se usavam expressões como “membro duro e intumescido”. No livro de Judith Kant ( escritora de Lúxuria – não li mas já dá pra advinhar), podem se encontrar uma série de membros duros, mamilos rosados, pernas bambas, etceteras molhados e por aí vai. Mas não é um livro pornográfico, ou é o que se chamaria de livro pornográfico para mulheres. Bom, pela capa eu percebi que se tratava da cada vez mais famosa “literatura feminina”, detesto o termo, mas explicarei minhas convicções ideológicas em outra oportunidade. As primeiras páginas me convenceram que se tratava de uma história bem humorada e cheia de frescuras que só as mulheres entendem, até aí ótimo, ia tudo muito brigdet Jones quando os personagens começaram repentinamente a respirar um ar de novela mexicano. Pessoas que mal se conheciam trocavam declarações apaixonadas, envoltas pela realidade que se dissolvia num limbo cor de rosa. Enfim, de uma hora para outra você tem a certeza que a trama da história deixa de ter importância e não se deve perder tempo levando alguma coisa a sério. O negócio é se divertir com os diálogos piegas e improváveis, se deixar levar pelo tesão do membro intumescido e quando não der mesmo, simplesmente ter um ataque de risos. Se fosse uma novela, seria Malhação. As modelos não fazem nada a não ser vestir coisas lindas, beber e se apaixonar. Tudo isso em Paris. Declarações de amor à beira do Rio Sena, noites de festas, sexo tórrido ( claro, tórrido), um intenso clima de vale tudo ( mulher com mulher, velho com moça, pobre com rico) e mucha, mucha fofoca. Por que gostamos de coisas assim? Não sei, mas mesmo sem nenhuma pretensão literária, Judith consegue nos divertir mais do que muita comédia bem escrita. Acho que todos nós temos, se não um lado negro, um lado roxo, com bolinhas cor de rosa cintilantes. Ah, e muitas purpurinas.
Gisela Cesario
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