sexta-feira, maio 29, 2009

Lembra de mim? – Sophie Kinsella

Sobre o quê: Uma mulher acorda de um acidente sem lembrar coisa alguma dos últimos três anos. Justamente a época em que sua vida mudou por inteiro. Ela se tornou diretora da empresa, casou, reformulou seu visual, ganhou milhões e simplesmente não tem idéia de como isso tudo aconteceu.

Crítica: Lembram de Becky? Claro que foi pensando na estrela do consumo criada pela autora que agarrei com todas as forças esse romance e arranquei-o da prateleira da livraria. O último livro de Sophie, sobre a irmã de Becky, apesar de seu toque magistral, não tem o brilho característico que a personagem Becky merece. Pois bem, Becky reencarnou em Lexi, a protagonista de “Lembra de Mim”, e reassumiu seu brilho original.
É certo que falam em diversas fórmulas para o escritor se manter em sucesso, entre elas dar férias a seus personagens de vez em quando, partir pra outra, digamos assim. Parece que foi isso que Sophie fez: apagou aquele conturbado passado de Becky, que, convenhamos, não é um ponto de partida fácil para história alguma, e olhou para uma página em branco. Talvez essa tenha sido exatamente a idéia da autora ao criar uma personagem com amnésia, o branco total, começar do zero mesmo.
O resultado foi que nasceu de novo a personagem brilhante feminina, tenha ela o nome que tiver. Importa mais que essa mulher seja fiel a cada um dos leitores (me recuso a falar em literatura feminina) do que seja fiel a um passado de ficção que nem sempre contribui para um bom desdobramento. Penso que,se forem como eu, os leitores de Sophie não estão apaixonados nem por Becky, nem por Lexi, mas pela pessoa um pouco desastrada, assustadoramente comum e surpreendentemente maravilhosa que surge em todos nós quando rimos, ou melhor, gargalhamos, com as aventuras da personagem.
Em plena forma do desastre, a desajeitada Lexi se depara com uma linda mulher no espelho e um marido primoroso em casa. O que fazer quando tudo parece tão perfeito? Descobrir falhas, claro! Um amante, amigas invejosas, família em crise, colegas de trabalho trapaceiros e um cabelo cada dia mais sem brilho vão lembrando a nossa desmemoriada de que nem tudo é o que parece. Ou que a grama do vizinho só parece mais verde até você se tornar o próprio vizinho ou que pimenta nos olhos dos outros é refresco ou sei lá o que mais. Sei apenas que é frenético e engraçadíssimo, 200 e poucas ( ou teriam sido 300...) que parecem ter sido lidas em 2 minutos. O mesmo texto ágil de sempre com o conteúdo hilário renovado.
Eu já disse o quanto eu ri?
É claro, eu lembrei da personagem anterior, como o título ( suspeito eu) cismava em sugerir, mas muito mais lembrei do quanto é importante rir da própria vida e do quanto são maravilhosas as história de Sophie Kinsella.
Gisela Cesario

terça-feira, maio 12, 2009

Desculpem, sou novo aqui – Carlos Moraes

Sobre o quê: Estamos nos anos 70. Um ex-padre, que havia sido preso por razões políticas, sai da cadeia e vai para São Paulo decidido a começar uma vida teoricamente normal.

Críticas: Vou adiantando de cara que só tenho coisas boas a dizer do livro, então vamos ao único “senão”. Pelo que entendi, o livro foi lançado agora (2009) e o autor, que também é ex-padre e ex-preso, já havia lançado outros com assuntos parecidos, então, não sei se por loucura da minha perturbada cabeça de leitora, cismei que a história era atual até começar a me espantar com algumas referências, principalmente à facilidade de se arrumar um emprego. Bom, falha minha. O livro trata da época de 70, uma daquelas épocas que a gente sente saudade mesmo sem ter vivido, pelo romantismo dos cigarros que não eram ícones do câncer, da dignidade da profissão do redator (seja de propaganda ou de jornal), essas coisas que o progresso leva embora.
Mas nada disso tem a ver com a história.

Quando comecei a ler esse livro, pensei que uma leitura pode nos trazer o esperado, o inesperado ou as duas coisas.

“Desculpem, sou novo aqui” nos traz as duas coisas. O esperado quando se conta que um ex-padre vai começar a viver como uma pessoa mundana ( leia-se pessoa do mundo, sem tom pejorativo) é que ele seja alvo de piadinhas por parte dos colegas de trabalho, seja olhado como um allien por ter feito um voto de castidade, seja alvo de enorme curiosidade por parte de todos, pois padre muitas vezes nos parece alguém entre o ser humano e Deus. O personagem de Carlos Moraes passa por tudo isso, por todos os primeiros alguma coisa de uma vida (de novo) mundana, principalmente os códigos, os quais ele faz questão de repetir que não entende. Então, do alto da nossa experiência comum, sorrimos por dentro para reconhecer com quantos inúmeros e aparentemente indecifráveis códigos convivemos o tempo todo, desde uma buzinada ao motorista da frente, a um sorrisinho com segundas ou terceiras intenções.

Bom, visto o esperado, vêem as surpresas. Todas deliciosas. Talvez a melhor delas seja a matéria onde o ex-padre tem que dizer “jornalisticamente” quem foi Jesus Cristo. Se as declarações de amor a Deus podem ser feitas de muitas formas, o autor certamente nos mostra uma das mais originais e agradáveis. Ele fala ( me arrisco a dizer que há semelhança com a santíssima trindade) de três maneiras de ver Jesus, como se Ele de letra maiúscula pudesse na verdade ser muitas pessoas, pois cada um vê com seus próprios olhos, ou seja, à sua maneira.

Destaquei esse ponto, mas a obra não tem nada de religiosa ou tem tudo pra nos mostrar que não há coisa alguma que não seja religiosa. O próprio autor diz que suas grandes devoções são Jesus Cristo e o Corintians, então espere um pouco de futebol também.

Mas, sobretudo, espere rir muito, pois o texto de Carlos Moraes é brilhante. Fluindo tranqüilamente nos leva a verdadeiras gargalhadas com suas ironias e metáforas. Quer dizer que você não vai conseguir ler de uma vez só, pois vai ter de parar várias vezes para retomar o fôlego, seja por um aperto no peito, uma intensa risada ou uma gostosa cosquinha na alma.

E agora que eu já falei do esperado e do inesperado, tenha certeza que ainda sobrou muito pra você descobrir em “Desculpe, eu sou novo aqui”. Há mais coisas entre textos como esse e o leitor do que supõe nossa vã sabedoria. Pois Deus sabe o que faz, Carlos Moraes sabe o que escreve e quem não leu não sabe o que está perdendo.
Gisela Cesario

quarta-feira, abril 29, 2009

Leite Derramado - Chico Buarque

Sobre o quê: Em seu leito de morte, um ancião de 100 anos e alguma coisa faz uma retrospectiva da sua vida. O passado tem como cenário um rio de janeiro marcado por grandes acontecimentos políticos, intensamente refletidos na vida da sociedade.

Crítica: Depois de tanto tempo sem fazer uma resenha, talvez essa seja a mais inútil das voltas. Elogiar o livro do Chico Buarque. Contar a todos a grande novidade: não há novidades. O autor fez o de sempre, foi brilhante.

E me faz feliz estar aqui, chovendo no molhado, dizendo que o texto de Chico é mais que prosa ou poesia, é musical de tão ritmado. Talvez por isso, da mesma maneira que desejamos ouvir várias vezes uma música boa, dá vontade de ler e reler os livros do Chico Buarque, como se estivéssemos simplesmente apertando o play.

Se antes o autor fazia músicas que contavam histórias, agora escreve história que cantam músicas. Palavras que, de tão perfeitas, soam como aquelas melodias que ganham novos sentidos e mais beleza a cada reprodução.

Há algo cíclico nos textos do Chico, que sacia uma sede que o próprio texto só faz aumentar. Ou aumenta uma sede que só o próprio texto pode saciar.

Um artesão de palavras. Assim é o autor que novamente nos presenteia com uma obra de arte. A vida de Eulálio, o velho moribundo que nas páginas vira menino inocente, jovem irresponsável, adulto ganancioso, sem nunca deixar de ser um homem apaixonado. Na história de seu amor perdido, ele perde também o poder, o dinheiro e a juventude.

Há algo de melancolia no livro de Chico, uma constatação cabisbaixa que a vida não se satisfaz em nos tirar a forma do corpo, os fios de cabelo, o brilho da pele, a vida faz questão, às vezes, de, antes de ir embora, nos tirar a própria dignidade.

A morte é o destino trágico de todas as vidas que, mesmo assim ou por isso mesmo, não precisam ser tão previsíveis e lineares. Podemos começar, terminar, recomeçar, parar no meio, voltar para outro ponto, como a memória caprichosa do velho personagem, como o texto perfeito de Chico Buarque. Cíclico, melancólico e irresistível como o próprio ato de viver.

Gisela Cesario

terça-feira, dezembro 23, 2008

A primeira mulher – Miguel Sanches Neto

Sobre o quê: Aos 40 anos, um professor de literatura solteirão tenta entender sua vida amorosa e, ao mesmo tempo, desvendar um mistério envolvendo sua primeira namorada.

Crítica:
No filme “Três solteirões e um bebê”, que já foi reprisado milhares de vezes em todas os canais, havia uma cena em que o solteirão principal lia um manual técnico para o bebê dormir. Nisso, outro solteirão perguntava o que ele estava fazendo, pois era óbvio que um recém-nascido não iria entender aquilo. Sua explicação era simples e convincente: não importa o que eu diga, contanto que seja no ritmo de uma historinha de dormir.

Agora vamos ao que isso tem a ver com o livro do Miguel Sanches. Teoricamente, é um suspense, o professor torna-se investigador para descobrir quem está chantageando sua primeira namorada, Solange. Acontece que ela é candidata a deputada, construiu sua popularidade em cima da busca de um filho desaparecido, é a porta-voz das mães e mulheres lutadoras, mas quando a eleição está próxima alguém começa a telefonar, dizendo que seu filho está vivo e vai revelar uma verdade terrível, capaz de destruir a candidatura de Solange. Pronto. Fez-se o fio condutor do mistério, mas será que o escritor quer escrever um mistério? Será que os leitores estão interessados nisso? No fundo, não importa aqui se o filho de Solange está vivo, morto ou virou um vampiro chantagista, o que importa é acompanhar a vida amorosa de Carlos Eduardo, o professor investigador protagonista.

Veja se não é mais interessante: todo ano ele tem um caso com uma ou mais alunas de suas classes de literatura, a atual se chama Líria, é branca como um Lírio ( desculpem, mas é isso mesmo) e , ao contrário das outras que só queriam passar de ano, está realmente apaixonada pelo professor. Por Solange, ele sente um amor eterno que se confunde com a eterna busca pela paixão perdida da juventude, e não faltam chances para sua procura, pois ele se torna guarda-costas ( entre outras partes) da deputada. Tem ainda a empregada de Solange, que ele pega em nome da desigualdade social e da luta de classes; inclua-se também alguma profissional para o trivial sexo pago. Isso sem falar no relacionamento simultaneamente lacônico e amoroso do professor com a mãe dele, leve ou pesadamente edipiano. Óbvio que, com tantos afazeres e acomeres, nosso professor não se interessa em descobrir patavinas nenhumas. O leitor pode ficar tentado, como eu, a fazer suas especulações para solução do mistério, mas logo perceberá que o mistério não faz a menor diferença.

A real viagem que Miguel Sanchez nos oferece é por uma prosa suave, companheira, um bate papo sobre o amor, a juventude, essas coisas gostosas de se conversar com um amigo. E, nessa viagem, o leitor ainda vai encontrar, como pitorescos pontos turísticos, versos poéticos entremeados em capítulos próprios, poesias no estilo de “cantigas dos amigos”, que vai reconhecer quem já estudou algo de literatura, mas isso é um mero detalhe, diante da real beleza dos versos. Poesia que cai como uma luva para uma história de amor e flutua meio bobamente num pretenso suspense.

Por isso, melhor esquecer esse lance de filho da deputada, de ameaça, chantagem, o autor quer é que pensemos em amor.

E se há algo a se descobrir no livro é somente a identidade da primeira mulher.

Gisela Cesario

terça-feira, julho 22, 2008

A interpretação do assassinato – Jed Rubenfeld

Sobre o quê: No início do século passado, Freud e Jung juntam-se a outros percussores da psicanálise para desvendar uma série de assassinatos em Nova Iorque.

Crítica: Quando um livro parece bom demais para ser verdade, a gente tenta não alimentar expectativas até pelo menos as últimas 5 páginas.
“A interpretação do assassinato”, no entanto, tem texto para derrubar as dúvidas do leitor mais desconfiado antes mesmo de se chegar ao meio.
Pensei que ainda que o final fosse um absurdo total, teria valido a pena. Explico: o autor tem uma qualidade rara: a capacidade absurda de unir forma e conteúdo. Não só a prosa é leve e deliciosa como também traz um enredo intrigante e cheio de curiosidades interessantíssimas do mundo da psicanálise. O assassinato em série, fio condutor da história, é investigado por um atrapalhado detetive e um azarado legista, mas a vítima sobrevivente é tratada pelo discípulo de Freud, o inventado personagem Younger, que também se apaixona pela analisada. Com uma trama dessas, nosso autor esbanja talento indo e vindo sem tropeções da comédia à profundidade de interpretações psicanalíticas e shakespearianas.
Como brinde extra para os leitores, há ainda a intimidade de Freud e Jung, seu conturbado relacionamento com os temas edipianos e a briga de ideologias com uma corrente de neurologistas. E tudo isso não é ficção, ou grande parte disso não é ficção, como descobrimos ao ler a última página, que, aliás, devia ser lido no início, ou todos correm o risco de, como eu, ter vontade de ler o livro de novo, agora dando mais importância às informações verídicas.
Fica a certeza de que, enquanto alguns livros são rabiscados e outros ordinariamente escritos, poucos são verdadeiramente construídos e arquitetados. É esse o caso de a interpretação do assassinato, onde o autor usa os materiais mais nobres do suspense para erguer uma cuidadosamente elevada estrutura textual. Mais do que uma obra literária. É uma obra de arte.

Gisela Cesario

sexta-feira, outubro 26, 2007

Um livro por dia – Jeremy Mercer

Sobre o quê: Um repórter policial canadense conta sua história ( acho que verídica) de quando passou cerca de 4 meses abrigado na peculiar livraria Shakespeare and Company em Paris.

Crítica: O título é, no mínimo, enganador. Ele dá a idéia de que haverá algum obstáculo a ser transposto ou algum prazer a ser deleitado diariamente. Ele dá a idéia de que existe um enredo, sabe aqueles pressupostos de uma história: situação inicial, conflito, resolução, situação final, mais ou menos isso.
Se eu tivesse renomear essa obra, chamaria “Deus, me dê paciência”. Claro, há alguns elogios que devem ser feitos. Vamos a eles que vai ser rápido. O texto é bem escrito, as descrições não são entediantes, o autor consegue despertar nossa curiosidade sobre a livraria, e qualquer leitor gosta de livraria...aí acabou. Viu como foi rápido? Incrivelmente, um bom escritor falando de uma boa livraria não conseguiu escrever uma história.
Vejam bem, não é questão de julgar se a história é boa ou ruim, a história não existe. Nada acontece. No começo, a descrição da livraria e dos dias parisienses é bem agradável. O problema é que essa sensação agradável é justificada não só pelo bom tom do texto, mas pela antecipação da boa história que está por vir, está por vir, está por vir e não vem nunca. Só quando faltavam umas 50 páginas pra terminar foi que me dei conta que nada jamais aconteceria, ou todos os dias aconteceriam coisas banais e nenhum evento seria o propulsor de algo digno de ser chamado de romance de qualquer tipo.
Claro que tudo deriva da expectativa. Se você compra um livro chamado “diário de viagem” , você não espera um fio da meada que conduza a um gran finale. Justiça seja feita, o subtítulo do livro é “minha temporada parisiense na shakespare and company”. Talvez a culpa tenho sido mesmo minha de esperar algo de mais. Sinceramente nunca imaginei que a temporada parisiense dele pudesse ser tão chata (desculpem, mas essa é a palavra). O livro se resume em contar que o dono da livraria é um intelectual comunista com ideais de liberdade e sociedade louváveis, que a livraria , além de servir de albergue para escritores, é desorganizada e suja, que os moram lá são pessoas perturbadas em busca de algo que não sabem o que é e que o autor é uma dessas pessoas. Como isso não é exatamente muita informação, o autor nos conta esses fatos nas primeira 10 ou 20 páginas. Depois só nos resta ler a mesma coisa pelas outras 250 páginas que sobram.
Há um certo orgulho em conseguir terminar. Não é pra qualquer um. Até porque, não é um livro por dia, mas a mesma história todo dia. Minha recomendação: não tente fazer isso em casa.
Gisela Cesario

quarta-feira, outubro 24, 2007

Mente Assassina – P.D. James

Sobre o quê: Um assassinato numa clínica psiquiátrica famosa de Londres coloca médicos e outros funcionários sob suspeita. Para desvendar o mistério, é chamado o inspetor Adam Dalgliesh.

Crítica: Como dizia aquele nobre filósofo, “de onde menos se espera é que não sai nada mesmo”. Talvez se eu tivesse esperado menos, claro, minha decepção teria sido menor. Mas como esperar pouco de um enredo desses? Londres, clínica psiquiátrica, médicos e loucos se misturando, assassinos, um inspetor frio, noites frias, neblina. Tenho a impressão que até a mãe do Romário de cadeira de rodas faria um gol desses, né não?
Infelizmente, PD James bateu pra fora e perdeu a chance de usar todos os elementos de um clássico de suspense para fazer um clássico de suspense.
Basicamente, a história é arrastada, apesar, mais uma vez apesar, de todos os elementos necessários para ser dinâmica. Os eventos não são encadeados, os personagens se movem num ambiente aparentemente sem gravidade, seus atos parecem não surtir efeito. O próprio inspetor não diz ao que veio, não assume personalidade alguma, inicia um romance com uma personagem que simplesmente desaparece da história ( bem fez ela).
Não é preciso entender muito de literatura para saber o seguinte: o mínimo que um suspense deve fazer é despertar sua curiosidade para o final. Em Mentes Assassinas, há excesso de brumas, aliado à chata mania de colocar nomes parecidos em personagens que nos confundem, tudo isso numa estrutura média, o livro não chega a ser ruim. Não é um texto que nos faz sentir raiva e vontade de joga-lo na parede. O problema é que ele desperta uma expectativa que jamais é satisfeita. Mas para matar a esperança de um leitor de mistério só no final mesmo, porque a gente sempre espera uma reviravolta de duas páginas pelo menos, algo que vai nos compensar por tanto lenga lenga. Bom, em Mentes Assassinas essa esperança morre também junto com as outras mortes do fim do livro. Nada que surpreenda alguém. Nada que justifique alguma coisa. Ao que tudo indica, PD James é uma escritora competente que, pouco inspirada, usou uma fórmula básica como alternativa à criatividade, por isso gerou uma obra oca, sem o conteúdo que fizesse jus à sua aparência de bom mistério.
Acho que isso pode se chamar de contar o final do livro. Mas tudo bem, nesse caso, não vale a pena nem começar.
Gisela Cesario

terça-feira, outubro 23, 2007

Todo mundo que vale a pena conhecer - Lauren Weisberger

Sobre o quê – Ela trabalha no UBS, um conhecido banco de investimentos, e tem um função considerada pouco glamourosa no universo feminino: atender a investidores descontentes, garantindo que a melhora dos seus rendimento é só uma questão de tempo. Ela está insatisfeita e, no meio de uma discussão com seu chefe, lhe escapa da boca um pedido de demissão. Pronto. É o início de uma nova vida onde ser fútil não é fútil, é básico.

Crítica: Lauren provou que tem talento ao escrever “O Diabo veste Prada”, nunca é demais lembrar o quanto o livro é enérgico, hilariante e pertinente. Ao escrever “Todo mundo que vale a pena conhecer”, Lauren provou que é um ser humano, ou seja, está sujeita a falhas.

A última obra da autora está longe de ser tediosa, o ritmo, ainda que tenha se tornado mais lento, continua frenético o suficiente para fazer 300 páginas parecerem 30. As situações engraçadas também estão longe de serem sem-graça, o texto continua fazendo o leitor rir sozinho com cara de pateta para quem está olhando. Porém, contudo, entretanto...O livro também está longe de ser tão bom quanto o primeiro. Errar é fácil. Todo mundo sabe como acontece. Os problemas são solucionados rápido demais, situações inverossímeis assumem ares de gran finalle, a contagem do tempo parece estranha. Finalmente, alguma coisa nos dá a impressão de baboseira. Deixando minhas considerações sobre o termo “literatura feminina” e suas implicações de lado, toda mulher quer um príncipe encantado, porém se ele estiver barbeado demais, se o cavalo for branco demais e se o castelo brilhante de doer, fica tudo meio chato...Filosoficamente, todas queremos ser barbies mas nenhuma de nós quer transar com o idiota do Ken ( ou seria Bob?)

O que estou tentando dizer com esse festival de metáforas é que a autora começou escrevendo um libelo contra repressão de empregos chatos e terminou num conto de fadas. Sempre gosto de deixar claro que, quando escrevo sobre um alguém de quem já li algo, comparo a pessoa com ela própria. Comparada a qualquer outra autora comum, Lauren teria escrito um ótimo e divertido livro. Comparada a autora de “O Diabo veste Prada”, ela produziu um esboço de piadas boazinhas numa narrativa leve, doce e gostosa. E, talvez no esforço de continuar assim, o final tornou-se doce demais até ficar enjoativo.

Há que se admitir, entretanto, que a Weisenberg conhece a alma feminina e sabe lidar com ela. Por isso, e apesar de tudo que escrevi acima, reconheço que somos seres cheios de contradições e recomendo o livro a quem estiver a fim de umas boas risadas.
Gargalhadas mesmo, creio e espero, vão ficar pro próximo.

Gisela Cesario

sexta-feira, agosto 24, 2007

Almost Blue – Caco Lucarelli

Sobre o quê: De diferente formas, três personagens estão envolvidos numa série de crimes. O assassino, um psicopata que troca de identidade a cada vítima. A detetive, que luta contra a solidão que a persegue e pra ter seu trabalho reconhecido. E um cego que passa os dias ouvindo um tipo de rádio amador. Ele é, por acaso, o único capaz de reconhecer o criminoso.

Crítica: Todo leitor acredita que existe uma força superior que o une aos livros. Algo como o destino que rege os encontros amorosos. Às vezes você caça, outras é caçado. Pois algumas vezes os livros escolhem o leitor, e não ao contrário.

Almost Blue jamais esteve na banca das novidades, nem dos mais nem dos menos vendidos (devia existir isso). Entretanto, em cerca de 6 meses o escolhi (aleatoriamente?) em estantes de lugares completamente diferentes como a biblioteca de um curso, um sebo e uma livraria. O lagarto na capa verde e azul, o nome em inglês de um autor que eu pensava que era brasileiro...alguma coisa me chamava naquele livro. Um dia entrei numa livraria e fiquei procurando, só de sacanagem foi a única vez que não o vi. Aí decidi que quem mandava no meu destino era eu, fui até o vendedor, pedi o livro, ele demorou a ser encontrado (Caco Lucarelli é italiano – era meio óbvio, né?), finalmente eu comprei. Mas chega de falar de mim.

Almost Blue. Cheguei a procurar no dicionário uma palavra, que eu não consigo encontrar na minha cabeça, pra adjetivar esse livro. Podia ficar aqui com fantástico, chocante, surpreendente, lancinante, certeiro, sei lá mais o quê. Não sei como descrever nem sei como alguém conseguiu escrever um livro tão cinematográfico ( será que encontrei a palavra?). Pela primeira vez tive a sensação de estar vendo um filme de ação enquanto lia um livro. Não por acaso, o autor é colaborador de Roman Polansky.

Não que eu seja muito fã de filmes de ação, mas é diferente quando as cenas acontecem dentro da sua cabeça. Claro que a linguagem é frenética, você vira as páginas sem perceber, mas o mais instigante é mudança da pessoa do narrador. Sei que essa expressão parece ter saído de uma aula de teoria literária, mas eu não estou fazendo uma referência gramatical. Acontece que a história é contada por um narrador ausente quando fala da detetive, pelo cego e pelo assassino simultaneamente. E o assassino é um cara doido que não sabe quem é. E você é um leitor doido que não sabe quem está falando, se é o cego ou o doido, porque o cego também não bate muito bem. Como num jogo de videogame, você tem que ficar atento o tempo todo pra não se perder.

Isso poderia ser horrivelmente chato e fazer você desistir de ler se não fosse feito do jeito certo, como uma comédia que tem o tempo exato pra platéia rir, o suspense não chega a deixar você tonto a ponto de perder o interesse. De alguma maneira sobre humana, Caco consegue fazer a revelação na hora certa do suspense máximo.

Cada descoberta de narrador traz ainda uma novidade pra história, as peças do quebra-cabeça vão se completando até chegar num final poético. Agora o adjetivo é esse mesmo. É como enxergar uma praia paradisíaca após de ter sobrevivido a um naufrágio. Depois de um puta exercício aeróbico, seu cérebro vai relaxar e gozar nas últimas linhas. E linhas é uma palavra tão limitada. Melhor seria dizer últimas cenas. Cenas de um daqueles filme que deixam a gente com cara de babaca fingindo ler os créditos, sem forças pra levantar e ir embora do cinema.

Gisela Cesario

quarta-feira, junho 06, 2007

Os amigos do crime perfeito – Andrés Trapiello

Sobre o quê: Um grupo de amigos aficcionados por romances policiais se reúne para filosofar sobre o crime perfeito. Isso até que um verdadeiro assassinato se encarregue de mostrar as diferenças entre a realidade de um crime e a filosofia das discussões deles.

Crítica: Graças a Deus acabou. Sei que isso não é a melhor maneira de começar uma crítica, mas o nome desse livro bem poderia ser “os inimigos do crime perfeito”. Antes de entrar no mérito que me leva a ser tão cruel, vamos dar os créditos justos e necessários ao autor.
Andrés Trapiello tem um ótimo texto, ao mesmo tempo ágil e suave. De outra maneira, sinceramente eu não teria conseguido chegar ao final do livro.
É como colocar um ótimo ator num filme sem roteiro, ele tenta em vão salvar uma história, mas a única emoção que consegue despertar é a pena pelo desperdício do seu talento.
As palavras do nosso autor gritam, choram, sussurram, usam de todos os artíficios, mas não conseguem fazer de “os amigos do crime perfeito” um livro bom. A história não existe, o foco muda constantemente, o leitor fica perdido sem saber em que acontecimentos prestar atenção. Há muita informação, e nenhuma delas parece ter alguma relação uma com a outra.
Paco Cortez, o personagem principal, é um escritor, ele resolve deixar de escrever e voltar pra sua mulher. E daí? Isso é relevante? Não se sabe. Sua mulher é filha de um policial corrupto e alcoolátra. Tá...Um dos participantes dos ACP ( Amigos do Crime Perfeito) é apaixonado por uma viciada em heroína cujo ex-marido vive aparecendo., E o tal do crime, fator, diria eu fundamental, a um romance policial, só acontece depois de umas 250, isso mesmo 250 páginas de nem sei o quê.
Mesmo após o crime, vemos que uma série de lebres foi levantada e permaneceu lá no alto, esquecidas lebres coitadinhas.
Ainda ajuda o leitor insone a evitar tranquilizantes, o fato de cada um dos participantes do ACP ter um pseudônimo. Paco por exemplo é Sam Spade, tem o sherlock hommes, o Nero Wolfe. Quer dizer que além de decorar um monte de histórias soltas e complexas, o pobre leitor ainda tem que lembrar de cerca de 10 nomes para 5 pessoas. Haja memória.
Claro que as coisas melhroram quando, por volta da página 300, alguma campainha toca e faz lembrar que aquilo é um romance policial, gente tem que morrer, gente tem ser investigada, motivos, assassinos, essas coisinhas básicos. Como aí faltam só umas 50 páginas para o fim do suplício, nosso autor sai correndo e consegue juntar algumas pontas daquelas histórias que estavam perdidas por aí. Pessolmente, minha vontade de ler a última linha e fazer outra coisa qualquer era tão grande que nem liguei muito.
Só um último aviso: se você deseja recomendar esse livro a alguém, não o faça a quem, como eu, é amiga de um crime perfeito.