terça-feira, março 20, 2012

A mulher de preto- Susan Hill



Sobre o quê: Numa noite de natal, em alguma linda e aconchegante cidadezinha da Inglaterra, uma família se propõe a fazer uma brincadeira aparentemente comum em lugares como esse. Reúnem-se em volta da lareira e começam a contar história de fantasmas. O único que não gosta da brincadeira é o homem da casa, e o motivo tem a ver com uma estranha mulher de preto.

Crítica: Um dos primeiros mandamentos da vida, possivelmente após não matarás, é que não devemos julgar um livro pela capa. No entanto, mais difícil que não cobiçar o homem da próxima, é se abster desse tipo de julgamento.

Entender é fácil. No momento anterior ao segurar um livro, em que se pode pelo menos ler a orelha, o que se vê é a capa, claro. É a capa que atrai o leitor, junto com o título. Todo leitor julga primeiro pela capa, segundo pelo título, terceiro pela orelha e resumo, depois, se for uma pessoa consciente, lê algumas páginas antes de investir seu dinheirinho. É claro que outros fatores influem conhecer o autor ou o fato de o livro ter virado filme. Pronto, cheguei. Nesse dia, em que comprei “A mulher de preto” eu estava disposta a assistir o filme originado pelo livro, mas a sessão era num horário horrível e num cinema bem longe de mim.
De manhã, ainda com o jornal na mão, pensei que eu ia esperar o DVD. Depois, assunto devidamente esquecido, entro na Travessa, sempre ela, e está lá. “ A mulher de preto”. Agora chega a vez da capa. Não fosse tudo que eu já disse antes, a capa teria me feito desistir. Parece que essa edição foi feita na fábrica de livros para pessoas idiotas ou pré-adolescentes ou ambos. É preta, com jeito de folhetim, tem uns olhos azuis imensos de um homem, que nada dizem da história, e um aviso do tipo “cuidado, você vai se arrepiar”, junto aquelas frases estilo “ uma história eletrizante do início ao fim”. Ah, bom, porque se fosse eletrizante só até o meio...

Ok, isso não tem nada a ver com a história. A capa é uma grande injustiça à história e só corrobora o mandamento que diz “não julgarás o livro pela capa”. Fiel, ignorei as advertências ridículas e parti pra primeira página. Logo nas linhas iniciais, dá pra perceber o tom absolutamente altivo da autora, que nitidamente está se lixando pra quem fez, está fazendo ou fará a capa. No segundo parágrafo, um leitor razoavelmente experiente já pode deduzir que ali existe uma promessa de preciosidade disfarçada de bobagem.

O texto, apesar de bastante descritivo, contém apenas o material suficiente para ambientar o leitor e trazê-lo do verão carioca para o inverno numa distante vila de um distante país onde neva, venta e a neblina é intensa.

O resto é uma narração tão bem desenvolvida que não se percebe o limite entre uma coisa e outra, num momento você é abduzido para dentro do livro, depois começa a passear junto com o personagem principal e vivenciar todos os seus sentimentos.

A história se passa antes da metade do século passado, o que torna o frio mais frio ainda. Nosso personagem narrador é Arthur, um senhor de idade, no segundo e feliz casamento, com uma enorme família numa casa de campo daquelas em que se imagina um boneco de neve no quintal.

Ele está feliz, aquecido e é noite de natal. Todos se divertem, comem, bebem e decidem que nada deve ser perfeito. Por isso, resolvem contar histórias de fantasmas. Isso definitivamente termina com a calma do nosso narrador. Adeus noite feliz, olá noite assombrada. ( Acho que esse título tem tudo a ver com a capa.)

A brincadeira provoca uma viagem num tempo literalmente enterrado, quando o narrador, ainda um jovem advogado, vivendo numa Inglaterra provavelmente mais úmida e lúgrube, precisa analisar os papéis de uma cliente que acabou de morrer. O problema é a que essa senhora morava num lugar chamado “ A casa do brejo da enguia”. Juro que não foi o cara da capa que inventou isso.

Tudo soa assustadoramente verdadeiro e sincero. Em linha alguma se percebe um tom divertido de uma história de fantasma. O negócio é sério e o bagulho é doido. Tanto que o advogado, tão racional, começa a se impressionar com o que parece uma concretização do absurdo.

Agora, se eu continuar, vou estragar uma das melhores histórias de suspense que meus raros leitores podem ter nas mãos. Li em menos de três dias e terminei bem no meio de uma madrugada.

Racional como o advogado do livro, pensei que era ridículo ter medo de ler uma história de terror durante a noite. Já li trocentos livros assim. Terminei às quatro e meia e só consegui dormir depois das seis. O pior é fiquei realmente arrepiada com o final. E percebi isso enquanto olhava o aviso idiota na capa. Confesso, idiota fui eu de não acreditar. Principalmente na única madrugada de frio e chuva do verão.
Então, minha dica é a seguinte, enquanto o filme não vira DVD, não se deixe assustar pela capa. Muito melhor é se assustar com a história.

Gisela Cesario

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A segunda vez que te conheci – Marcelo Rubens Paiva


Sobre o quê
: O término de um namoro coloca um jornalista meio canalha numa vida muito diferente, tanto que ele passa a exercer a profissão de agenciador de mulheres, tudo muda, menos o fato de ele ser meio canalha, inclusive na hora de cometer um crime.

Crítica
: Sinceramente, eu me surpreendo comigo mesmo. Como pode nesse blog meu, só meu e de mais ninguém, não ter uma crítica a um livro do Marcelo Rubens Paiva? Ah, não vou ficar rasgando seda (ainda se diz isso?), falando que eu adoro o cara e tudo que ele escreve...Tem coisas que ele escreve que não são tão boas assim, mas esse livro não é uma delas. Esse livro é tão bom assim, já li “A segunda vez que te conheci” umas dez vezes e sempre parece só a segunda vez...

Existe um ar amoral no texto do Marcelo, que lembra muito o Rubem Fonseca, outro autor que adoro, mas o Marcelo tem ainda um jeito de adolescente que não se conforma com a vida do jeito que ela é. A verdade é que ninguém se conforma, mas todo mundo finge, ele não.

Mas vamos ao livro: no começo, vemos um jornalista egoísta, mas sensível( o livro faz isso parecer possível, acredite.), abandonado pela namorada e tendo de encarar o fato de voltar à gandaia. E pra ajudar, ainda há a amiga da ex-namorada...ah! As fantasias masculinas irreveláveis, tão descaradamente reveladas!

Só que a dita gandaia toma proporções enormes, incalculáveis, cumuladas com a demissão do jornal, o que o torna realmente um cafetão. Mas não um cafetão qualquer. Um cafetão inexperiente o suficiente para parecer uma virgem no mercado do sexo.
O crime é um acidente, não estou adiantando nada, quer dizer, estou, mas não o principal.

Estou só avisando que não é um livro essencialmente de suspense ou policial, o crime é ator coadjuvante de um romance, mais um romance sem vergonha do Marcelo Rubens Paiva.

Uma história de amor temperada com sangue, suor e sarcasmo, um texto apaixonante, engraçado e gostoso como um canalha. Um texto ao qual essa crítica nunca será justa por mais que o elogie.

Não é um livro novo, mas a resenha é nova e hoje prometi escrever resenhas de todos os livros do Marcelo Rubens Paiva. Você, claro, não precisa ler todas. Leia só os livros.
Gisela Cesario

PS – Esse é o meu primeiro PS em resenhas. O primeiro livro que li dele quando era adolescente foi blecaute, passei uma madrugada inteira lendo e fiquei apaixonada. Só depois fui descobrir quem era o Marcelo Rubens Paiva e tudo o mais, o único livro dele que nunca li foi o mais famoso, ”Feliz Ano velho”, sou fraca demais, admito. Mas agradeço a Deus por tudo que, de bom ou ruim, tornou esse autor tudo aquilo que ele é hoje pra todos nós.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Tumulto em noites de blackout – José Nunes

Sobre o quê: A luta por uma herança deixada em diamantes é ponto central desse suspense. Após a morte de seu marido, Rovena, nome e jeito de vilã, decide vir da África do Sul para o Rio de Janeiro, pela primeira vez em vinte anos, com o objetivo de cumprir as últimas vontades do falecido, o que acaba tumultuando noites e dias de envolvidos e herdeiros.

Crítica: José Nunes é um escritor amador e isso salta aos olhos na sua obra de estréia. Amador no melhor e mais correto sentido da palavra. Aquele que escreve porque ama, fazendo disso não um ofício, mas a conseqüência natural de um sentimento explosivo, que inicialmente assusta para depois conquistar.

Digo isso porque as primeiras duas ou três páginas do livro provocam uma intensa curiosidade. Logo depois, quase todas as informações relevantes para a história são praticamente atiradas na cara do leitor, que tem duas opções: desistir ou tentar organizar as idéias para continuar a leitura.

Quem gosta de um bom suspense certamente vai escolher a segunda opção. Não sei se essa confusão inicial é proposital, mas talvez ela seja fundamental para alertar o leitor que, se ele deseja prosseguir, deve abandonar suas preocupações e permitir que seu cérebro seja inteiramente ocupado pelas reviravoltas da trama.

Reviravolta é que não falta. E elas se passam num cenário clássico de mistério. Uma mansão à beira de um penhasco, com um casal ambicioso, uma sobrinha destrambelhada, a viúva e sua não tão fiel criada, sem falar no consagrado herdeiro, o sobrinho Walker.

O cara é um músico mal sucedido, tirado de seu mundo de drogas e falta de dinheiro, para vir morar nessa mansão, receber sua parte em dinheiro e viver blackouts constantes, muito tumulto e também um grande amor.

Com todos esses ingredientes na cabeça, não dá pra pensar em muitas coisas a não ser no que vai acontecer na próxima página.

Findas as iniciais e bombásticas revelações, a história ganha um ritmo mais aprazível, embora não menos frenético. Isso porque, a partir de um determinado ponto (não sei bem qual), a concentração no texto torna-se absolutamente natural. Mentiras viram verdades, personagens se transformam, sentidos se alteram. Tudo parece moldado como uma perfeita armadilha para prender você na doideira de José Nunes e seus personagens.

Em dois dias absorvi e processei o conteúdo de “Tumulto em noites de Blackout”. Bem que eu poderia ter lido em umas duas horas e meia ou três, porém, quando gosto de um livro e vejo as páginas acabando, sou forçada a parar e deixar pra depois.

Mesmo assim, só consegui prorrogar o final mais 24 horas. Demorar mais teria sido como ver um filme em slow motion. E é claramente de filme o ritmo da narrativa. A gente não percebe mais que está lendo, porque as páginas contêm cenas e não dá pra dizer se você é leitor ou expectador.

Mas o que tudo isso tem a ver com o que eu falei no início, sobre ser amador? É que, às vezes, o profissionalismo endurece o texto, burocratiza a escrita, faz do escritor um vendedor e do leitor um cliente.

O texto de quem ama tem imperfeições, lacunas, incongruências. E isso o torna humano, real e verdadeiro, como o próprio leitor, que, ao se identificar, também se apaixona. Por isso, desejo que esse autor faça muito sucesso, ganhe muito dinheiro, mas continue muito, muito amador. Seus leitores certamente vão corresponder.

Gisela Cesario

domingo, novembro 13, 2011

As esganadas – Jô Soares

Sobre o quê: Gordas são esganadas. Essa frase de duplo sentido é o tema desse suspense. No Rio dos anos 30, um delegado carioca tem a ajuda de um delegado português ( e gordo) para desvendar o assassinato de gordas que morrem sempre depois de terem sido empanturradas com iguarias lusitanas.

Crítica
: É claro que não estou aqui pra dizer que o Jô Soares é engraçado. Mas posso dizer que tinha esquecido o quanto o Jô Soares é engraçado.
Em algumas partes do livro dá pra visualizar o próprio Jô travestido num dos hilários personagens, como uma das vítimas gordas ou o delegado português que vem auxiliar o delegado carioca. É como se a gente estivesse lendo um script do saudoso “ Viva o gordo”.

Porém tem um porém, nem tudo são risadas. Talvez querendo repetir o brilhantismo do Xangô de Baker Street, o autor faz várias e e cansativas viagens a momentos políticos e artísticos do final dos anos 30 e início dos 40. Acontece que no livro anterior do Jô, a história real completava a história da ficção, uma se misturava com a outra e viravam uma realidade nova e indivisível, uma realidade que era a própria ficção do livro.

Na história das Gordas é diferente. O suspense não é melhor nem pior, mas ele se basta. Não precisa nos remeter à segunda guerra mundial. A ambientação no Rio antigo, a caprichosa descrição das ruas do centro é mais do que suficiente pra preencher o pouco espaço de que as gordas ainda poderiam necessitar pra brilhar.
O mistério das rechonchudas é ricamente substancioso em conteúdo. Altamente vitaminado em inteligência. Extremamente avantajado em criatividade. Numa história tão bem delineada, valia mais ter explorado a opulência da própria trama do que fazer remissões que mais parecem alegorias, falando de um passado que pouco tem a acrescentar.

Estamos diante de um caso onde um filho assassinou a própria mãe, por odiar sua gordura e suas receitas portuguesas que ele mesmo jamais teve permissão de provar. Um filho magro, amargurado, com uma doença rara que lhe tirou as impressões digitais. Um filho que herdou uma funerária chamada Esfige e usa o carro como balcão de doces para atrair suas vítimas: gordas parecidas com a mãe dele, que ele faz questão de empapuçar cruelmente antes de assassinar.

Com tudo isso como prato principal, pra que política? Isso não é gulodice, é desperdício. São coisas diferentes, porque com gulodice, a gente iria se fartar com mais detalhes mórbidos da fascinante trama das gordas, mas ir pra outro lado, desviando o assunto, é desperdiçar tanto o interesse do leitor quanto a capacidade do autor.

Cortando essas gordurinhas, o livro do Jô fica até mais magro do que deveria ser, mas continua sendo um excelente suspense.

Por isso mesmo, deixa os leitores famintos ou simplesmente gulosos da inteligência e do humor inigualáveis de Jô Soares.

Rapidamente devorada, a história nos traz de volta a condição de saudade desse gordo que devia escrever sempre, todo dia e o dia todo.Esse livro é um canapé. Ele só abre nosso apetite pra querer mais desse Jô tão delicioso. Uma viva às gordas e muitos beijos no gordo!

Gisela Cesario

sábado, outubro 29, 2011

Kafka à beira mar- Haruki Murakami

Sobre o quê: Um menino de 15 anos que resolve fugir de casa simplesmente para ser livre. Um senhor que, depois de uma espécie de ataque nuclear, se tornou analfabeto, mas consegue se comunicar com gatos. Aparentemente paralelas, as duas história se encontram no infinito mágico criado por Murakami.

Crítica: Sei que preconceito é feio e errado, mas infelizmente isso não me torna menos preconceituosa. Tenho um pé atrás com tudo que é japonês, filme, livro, nem amendoim japonês eu curto. No entanto, um grande amigo meu que tem ótimo gosto me jurou de pés juntos que “Kafka à beira mar” era maravilhoso, ótimo e ainda teve uma palavrinha decisiva. Ele disse que era absurdo. Não resisto a um absurdo, nem a um livro de presente, por isso, sem abandonar minha desconfiança, resolvi ler o livro do Murakami.

Realmente absurdo é a palavra chave pra definir a história. E o engraçado é que quando você pensa, ah, era disso que ele estava falando quando usou o termo absurdo vem um absurdo maior ainda. Como assim? Bom, um menino de 15 anos ter um amigo imaginário chamado corvo é um pequeno absurdo se comparado ao fato de ter havido um tipo de ataque nuclear onde crianças ficam paralisadas e, minutos depois, voltam ao normal, todas menos uma. Isso também não é um grande absurdo quando se pensa que essa única criatura hoje em dia não sabe nem ler, refere-se a si mesmo na terceira pessoa (“Nakata não pensa direito..”), mas conversa com gatos e vive disso, pois ganha dinheiro encontrando gatos perdidos. E por mais que se imagine que a gente pode se acostumar com absurdos, isso é mentira, porque aqui cada absurdo tem o dom de surpreender o leitor e deixá-lo viciado, virando as páginas quase doentiamente em busca do próximo absurdo.

Muito embora seja recheado de maluquices, o livro de Murakami nada tem de ficção científica ou conto de fadas, nem parece com Jaspion. O mundo de “Kafka à beira mar” não confronta a realidade. Ele a recria. Tudo se torna possível e faz muito sentido. Nessa viagem fantástica do menino Kafka e do senhor Tanaka em busca de um sentido para vida, existe algo que desvenda os lugares mais secretos da alma humana, onde a realidade de cada um nada mais é que uma inconfessável verdade. Seja inconfessável porque absurda ou porque sonho ou porque indistinguível das loucuras do mundo real.

Kafka a beira mar só começa a fazer sentido quando o leitor deixa de procurar o sentido, quando, depois de ser açoitado por uma sequência de acontecimentos inacreditáveis, finalmente se entrega a um fato muito simples. A realidade não existe, portanto tudo pode ser normal ou absurdo. É exatamente quando as surpresas deixam de surpreender o leitor que ele percebe a grande e final surpresa do livro de Murakami, a de que ele, leitor, foi engolido pelo mundo louco ou absolutamente lúcido do livro.

Mundo esse que, de tão mágico, não te abandona na última página, mas diz baixinho no seu ouvido que vai estar sempre ali, pronto quando você quiser voltar porque se cansou desse mundo real, tão chato e tão absurdo.
Gisela Cesario

quarta-feira, junho 22, 2011

Nunca vai embora - Chico Mattoso

Sobre o quê: Um dentista cansado da sua rotina e apaixonado por sua namorada cineasta resolve atender a um pedido dela. Ir para Cuba explorar as possibilidades de um documentário. Mas a viagem se transforma numa busca incessante e totalmente inesperada.

Crítica:
Coincidentemente ou não ( e não foi por coincidência que eu comecei assim), antes de ler esse livro me surpreendi com um poema que eu não conhecia do Paulo Leminsky sobre o barro. É assim: “ O barro toma a forma que você quiser. Você mal sabe estar fazendo aquilo que o barro quer.” O verso me deu um baque, daqueles que fazem ler várias vezes e sacudir a cabeça para entender o lugar onde o texto te fez parar. No mundo dessa poesia de Leminsky, é o destino quem manda e pronto. A gente só pensa estar fazendo o que quer.

E foi assim que eu entrei numa livraria e agarrei “Nunca vai embora”. A primeira impressão foi que havia algo errado no título, como o livro parecia ser sobre um cara correndo atrás da mulher, imaginei que deveria ser nunca vá embora, mas resolvi comprar assim mesmo.

A história é mais uma daquelas em que o texto fala mais do que a própria história. A trama, basicamente, é um pretexto para que você conheça as paranóias do personagem, a sua visão do mundo.

O que acontece só é importante e fascinante porque acontece com ele , é a narrativa que transforma uma perseguição sob sol de Cuba na caça ao sentido da vida, tão comum a todos nós.

No livro do Mattoso, os fatos não ocorrem simplesmente, eles atropelam o nosso já tão confuso dentista, que, claro, passa por uma crise existencial daquelas que não passa nunca.

No meio da estadia, ou no pior da estadia, justamente no momento em que ele pensava em ir embora, ela faz isso primeiro. Desaparece da vida dele, ao mesmo que faz a vida dele aparecer pra ele. É só a partir disso, que Renato ( o nome do dentista) começa a se enxergar, é procurando Camila ( o nome da cineasta) que ele começa a ver o caminho escondido do seu destino.

No começo do livro, há um momento marcante em que ele compara a namorada a uma barreira, a qual impede que o mundo chegue até ele, o que ele percebe depois é que ele também não tinha acesso a esse mundo. Mas o que isso tem a ver com o barro e o destino e o Leminsky? Hein? Calma, vou explicar.

É preciso perceber primeiro que ele idolatra a namorada e parece ter medo que ela descubra o quanto ele é inferior e ela é incrível. Tentando descobrir o que ela teria visto nele, ele fala que a cumplicidade deles começou por causa dos comentários que ele fazia sobre o filme “Chinatown”, filme esse que deu origem a um outro chamado “Chave do Enigma”.

Eu tinha dito calma, não tinha? Então, vou chegar lá. Enquanto os dois discutiam esse último filme ele interpetra uma frase do personagem principal: “Nunca vai embora” é a frase. Pra ele, esse foi o momento que fez ela se apaixonar. A interpretação é a seguinte: nunca vai embora se refere “à resignação de um homem cansado de se debater contra uma força que é muito maior que qualquer um de seus dons”. Pronto. Cheguei no Leminsky. É a força do barro, do destino, daquilo que, mais do que qualquer vontade, obriga você a fazer o que ele quer e nunca vai embora, pelo menos enquanto você viver.

Não me espanta que a cineasta tenha amado um cara teoricamente sem graça por causa dessa frase. Ela, sem dúvida, me ajudou a amar o livro. E por isso também a história não importa muito, chega uma hora em que há muito mais descobertas a serem feitas do que o paradeiro da Camila. Descobrir o porquê de tudo, por exemplo. Descobrir por que eu escolhi esse livro, por que gostei e por que, depois de tanto tempo, me obriguei a escrever outra resenha.

Talvez escrever não seja propriamente um dom, mas seja uma força muito maior do que todos os dons de quem escreve. E no fundo, estou fazendo somente aquilo que o texto quer.
Gisela Cesario

segunda-feira, dezembro 27, 2010

O fantasma de Stalin – Martin Cruz Smith

Sobre o quê: O detetive Arkady ( do Mistério do Parque Gorky) recebe uma estranha missão: investigar o aparecimento de Stalin em uma das estações de metrô de Moscou bem na época das eleições.

Crítica: Como os meus seletíssimos leitores sabem, não costumo lembrar nem dos livros que li, nem das resenhas que escrevi. No entanto, lembro perfeitamente de ter lido O Mistério de Parque Gorky, livro que consagrou o autor no mundo do suspense, e me recordo o quanto é absurdamente bom.

O problema é que não há nada pior para um livro do que um livro anterior do cacete. Li O fantasma de Stalin esperando no mínimo, o máximo. E me decepcionei feio.

Imagine uma pessoa que tem um armário cheio de roupas incríveis, todas elas poderiam compor um traje lindo, só que ele fuça um monte de peças e faz uma combinação caótica e inesperada.

Infelizmente, assim é o “Fantasma de Stalin”. A obra começa com o problema do aparecimento do fantasma juntamente com uma investigação de assassinato. Além disso, temos: uma criança de rua (exímio jogador de xadrez, adotado por Arkady), uma agência matrimonial cuja dona planeja o assassinato do marido, um triângulo amoroso entre Arkady, uma mulher da Chechenia e o candidato das eleições, um grupo de extermínio, agentes corruptos ( que não podiam faltar), ex-combatentes revoltados, marketeiros americanos e um monte de outras coisas que já esqueci, além de, claro, muita vodka, pois estamos na Rússia. Enfim, existem ingredientes mais do que suficientes para uma história incrivelmente inteligente ou incrivelmente enrolada. E infelizmente, o autor acabou por escolher, imagino que sem querer, a segunda opção.

O personagem Arkady parece estar sofrendo de esquizofrenia, pois assume diferentes personalidades de detetives famosos ao longo da história, em nada se assemelhando a ele mesmo no Mistério do Parque Gorky.

Como se não bastasse, a editora conseguiu realizar uma das piores traduções já vistas. Cheguei a marcar alguns trechos totalmente sem sentido pra reproduzir aqui, mas acabei desistindo de folhear o livro novamente.

Concluí que a forma nem precisaria ter atrapalhado, pois o conteúdo é suficientemente confuso.

Talvez tenha sido um erro querer reviver o Arkady. Talvez tenha sido o fantasma dele que matou “O fantasma de Stalin”.

Apesar de tudo, eu acredito em vida após o fracasso ou após o fantasma. Por isso, vou continuar sendo leitora de Martin Cruz Smith.

O autor, mesmo não tendo acertado dessa vez, ainda merece a nossa fé.
Gisela Cesario

terça-feira, novembro 23, 2010

No buraco – Tony Belloto

Sobre o quê: Um roqueiro fracassado está literal e metaforicamente no buraco, sem dinheiro e enterrado na areia da praia de Ipanema. De lá, ele nos narra seus piores e melhores dias de fama enquanto vive uma perigosa história de amor com uma chinesa possivelmente mafiosa.
Crítica: Em primeiríssimo lugar, antes de mais tudo preciso dizer que tem algo sobre a voz do Belloto na orelha do livro, o próprio autor deu entrevista no lançamento dizendo que encontrou sua voz, a primeira e única crítica que li dizia a mesma coisa: a voz do autor...Peraí, cara, esse negócio de ler um livro e ouvir vozes é coisa de Chico Xavier.

Pois é, o Tony Belloto é guitarrista e escritor, não necessariamente nessa ordem, e ninguém está duvidando disso. Isso de acreditar que existe a voz do autor, aquela que só é achada após um árduo trabalho literário é papo de escritor invejoso, crítico invejoso, jornalista invejoso ou ainda professor de português invejoso. Não há como chamar de preconceito com músico o que não passa de inveja. Aquele sentimento feio, sujo e malvadinho que só quer destruir o trabalho dos outros. Que a inveja exista, não me surpreende, me surpreendia pensar que um autor como Tony Belloto cairia nessa.

Devo ter alguma outra resenha dele, é um caso óbvio de talento, quem não acredita que um guitarrista pode também e muito bem escrever que vá ouvir a voz do tempo ou então um disco dos titãs. Me revoltou esse burburinho de vozes sobre o Tony Belloto ter ou não encontrado sua voz, também fiquei incomodada vendo o autor falar sobre a opinião dos outros escritores, como se ele estivesse fazendo um teste pra pertencer a uma confraria secreta.

Alguém com a capacidade narrativa dele nunca, jamais, em tempo algum deveria se preocupar com esse tipo de idiotice. Por isso, foi com um pouco de revolta que comecei a ler no buraco, esperando o autor escorregar na casca de banana dos críticos. Há diversas referências sobre escrever no livro e também sobre tocar, como se fosse finalmente o encontro de dois mundos.

Isso é meio irritante, porque o mundo é um só e as pessoas não estão carimbadas com suas profissões. Não era só do Raul Seixas o direito de ser uma metamorfose ambulante. E ninguém tem nada com isso. Passada a irritação e torcendo veementemente que o autor esqueça essa história de voz, a outra história, aquela que Tony conta No buraco só não surpreende porque ele já tinha surpreendido antes no primeiro livro. E essa é exatamente como as outras histórias que ele já escreveu: engraçada, verossímil, imprevisível e perfeita.

Não se engane pensando que não é um suspense, não se engane pensando que não é um deboche, não se engane, como eu, pensando que o Tony Belloto está ouvindo vozes demais. Tem piada, sacanagem, mistério, reflexão, amor, ódio, saudade, arrependimento, vício, alegria e, claro, tem surpresa também. Só pra surpreender quem achou que ia ouvir vozes. Está tudo lá “No Buraco”, no bom sentido..., do Tony Belloto.
Gisela Cesario

segunda-feira, novembro 01, 2010

Livros de outubro: O vendedor de passados – Agualusa. O mistério das cabeças degoladas – Frei Beto.

O vendedor de Passados – Imagino o porquê existem tantas resenhas a respeito desse livro enquanto estou aqui, escrevendo mais meia, porque esse parágrafo não pode ser chamado resenha inteira. Pontos a destacar: linguagem poética, português angolano, narrador animal. Ë isso mesmo, o livro é narrado por uma lagartixa, ou osga, como deve se dizer por lá. Gostaria tanto de um glossário de português de lá pra português de cá, mas tudo bem. A obra é um delírio, com cores vivas, bonitas, passado num canto do mundo que parece até a Bahia de Jorge Amado, um lugar onde o tempo passa diferente, as osgas falam, os sonhos se confundem com a realidade e mentira contada diversas vezes acaba por se tornar verdade.

O mistério das cabeças degoladas- Frei Beto – Tente encaixar um quadrado perfeito num buraco perfeitamente redondo e você verá que nenhum dos dois tem nada de errado, eles simplesmente não se encaixam. Também não há nada de errado com a narrativa de Frei Betto, a história é verossímil, interessante, o texto tem a mistura de erudição e lirismo nas devidas doses . Porém a minha expectativa (só posso falar por mim) era redonda e o livro termina em quadrado. Tento explicar melhor: o nome frei Beto e a palavra suspense na mesma orelha de livro despertam uma esperança que não se satisfaz com o mistério das cabeças degoladas, falta algo ou talvez sobre. O autor nos sugere desvios para o mistério, como o assunto das crianças de rua ou uma possível história de amor, mas esses desvios são ruas sem saída, só nos resta voltar pro mistério depois de dar com a cara no muro. Acontece que, quando voltamos, estamos menos tensos e curiosos do que deveríamos, pois o autor mesmo nos distraiu. Um suspense deve ser inteiro pra ser perfeito, e inteiro é aquele em que tudo que se menciona na história se relaciona com o que se está desvendando. Não acho que isso seja fácil de fazer e se eu mesma soubesse como se faz não estaria aqui escrevendo essa mini-resenha. Porém era isso que eu esperava: perfeição. O mistério das cabeças degoladas é apenas humano, não é divino como seu autor.

Gisela Cesario

sábado, outubro 09, 2010

O palácio de Inverno – Jonh Boyne

Sobre o quê: Georgui, hoje com 82 anos, se lembra bem como as guerras e as mudanças na Europa transformam sua vida sem serem capazes de abalar seus sentimentos.

Crítica: Quem vive num palácio de inverno tem pelo menos três certezas. Um dia ele não será mais palácio. Noutro não será mais seu. E, por fim, acabará o inverno.
Escrevi essa declaração enigmática quando terminei de ler o Palácio de Inverno de Jonh Boyne. Sinceramente, minha memória não me permite lembrar se escrevi a resenha de o menino do pijama listrado. Bom, pode-se dizer que ele começou absurdamente bem e não saiu do ritmo.
Mais: ele melhorou.
Ouso dizer que o Palácio de inverno é ainda melhor do que o menino do pijama listrado, simplesmente pelo fato de nos proporcionar mais momentos, de ser mais longo e complexo, demorar mais a terminar.
Normalmente, a complexidade não é algo que me atrai num livro. Prefiro histórias simples e lineares, menos prováveis de se cometerem erros. Porém, nem os nomes russos me afastaram dessa obra de John Boyne. Eu sabia que alguém que foi capaz de transformar o nazismo numa história de amizade não iria falhar diante um monte de nomes cheios de consoantes.
O Palácio de Inverno também fala das guerras e também fala da mesma maneira comovente, com os olhos, os ouvidos e principalmente a boca dos que vivem e não simplesmente emitem uma opinião.
Novamente, John Boyne nos mostra o lado real, onde não há o certo e o errado, os mocinhos e os bandidos, mas simplesmente seres humanos tentando tirar o melhor da posição que o destino lhes concedeu.
A sensibilidade do autor chega a parecer auto-biográfica. Se, no menino do pijama listrado, a historia era de amizade, aqui ela é de amor. Uma história mais forte que a guerra porque trata de um amor mais forte que todos os motivos da guerra.
O menino Georgui começa como um senhor de 82 anos e, sem querer estragar o livro para os que não leram, posso adiantar, ele conta somente uma história, a sua com a sua amada.
Dizer mais iria tirar um dos grandes prazeres de ler Jonh Boyne, saber que o amor é tão inevitável e tão inerente ao ser humano quanto a mais cruel das guerras. A diferença é que as guerras são como o inverno enquanto o amor, pelo menos segundo o autor, pode ser eterno.(rimou sem querer, juro.)
Gisela Cesario